A LEI, A CARNE E O ESPÍRITO

Texto Áureo: Rm. 7.25  Leitura Bíblica: Rm. 7.1-15

INTRODUÇÃO
O capítulo 7 da Epístola aos Romanos é bastante complexo, por isso precisamos analisá-lo com cautela, atentado para os princípios hermenêuticos. Inicialmente, consideraremos a analogia de Paulo da Lei com o casamento, em seguida, ressaltaremos que a Lei é boa, santa e justa, que o problema está na natureza humana. Ao final, antecipando o tema a ser estudando na lição seguinte, destacaremos a necessidade de andar em Espírito, a fim de não cumprir as concupiscências da carne.

I – ESTAMOS LIVRES DA LEI

No início dessa seção Paulo trata com os legalistas a respeito do significado da Lei, fazendo uma alusão ao casamento. Em seguida, se volta para os antinomistas, ressaltando a necessidade de se considerar o valor da Lei. A alternativa ressaltada pelo Apóstolo é permitir que a vida seja guiada pelo Espírito Santo. Para mostrar essa verdade, Paulo apela para a analogia do casamento, destacando que não estamos mais debaixo do jugo da Lei. Faz-se necessário ressaltar que esse trecho da Epístola não deve ser usado para respaldar a doutrina do casamento e do divórcio, pois esse não é o tema principal dessa passagem das Escrituras. Paulo defende que quando da morte de um dos cônjuges, é possível que o cônjuge que ficou possa contrair novas núpcias, sem impedimento. De igual modo, os crentes não precisam mais depender da Lei, pois essa caducou, tornando possível que esses passem a ser conduzidos pela fé em Jesus. A Lei morreu para aqueles que seguem a Cristo, de modo que a partir do momento que esses têm um encontro pessoal com Ele, passam a condição de esposa do Noivo. Essa metáfora do relacionamento do crente com Cristo enquanto noivado e casamento é recorrente na Bíblia. Isso fundamenta a natureza desse enlace, não mais conduzir por regras religiosas, mas por amor Àquele que se sacrificou para nos atrair para Si. Enquanto estávamos na Lei, não conseguíamos agradar ao Esposo, porque estávamos fundamentados na regra. As exigências da Lei, ao invés de motivar para a obediência, causavam frustração, e esgotamento espiritual. Mas como novas criaturas em Cristo, podemos viver a partir de uma nova perspectiva, não mais pela carne, mas no Espírito, que nos inspira à obediência, pautada no amor. A frase de Agostinho é elucidativa a esse respeito: “ame a Deus e faça o que quiser”. Na verdade, todos aqueles que amam a Cristo, obedecem a Seus mandamentos, tem satisfação de fazer a Sua vontade (Jo. 14.21).

II – A LEI É SANTA, JUSTA E BOA

Por outro lado, Paulo mostra aos legalistas e antinomistas que a Lei não é má, muito pelo contrario, ela é santa, justa e boa (Rm. 7.12). Na verdade a Lei reflete o caráter de Deus, se corretamente compreendida, revela o caminho de Deus para a preservação da humanidade. O problema não está na Lei, mas nos próprios seres humanos, que não conseguem obedecê-la. Apelando à analogia do casamento, não falhamos porque o primeiro marido não prestava, mas por causa das nossas fraquezas. O pecado que habita no ser humano é o mal residente, a força que o impulsiona a fazer o contrário do que é correto. Essa latência tem sido amplamente estudada pela psicanálise de Freud, mas foi descrita com maestria por Paulo, pela inspiração do Espírito Santo. Mas a Lei não pode retirar o pecado, tem apenas o poder de torná-lo evidente (Rm. 7.8). É por meio da Lei que vem o pleno conhecimento do pecado, e por conseguinte, a morte (Rm. 6.23). Isso acontece porque a Lei não apenas mostra a realidade do pecado, ela também dá seu veredito, sentenciando o pecador à morte. O pecado, como dizia Chesterton, é a doutrina bíblica que pode ser mais facilmente comprovada. Em todos os lugares, nas mais distintas condições sócias, é possível identificar o pecado. Os jornais o declaram todos os dias, corrupção, egoísmo, a lista é imensa. A pena do pecado a morte, não apenas a física, mas, sobretudo, a espiritual. A humanidade segue de mal a pior, pois decidiu viver longe dos padrões divinos. Mas a igreja, mesmo com suas imperfeições, foi agraciada pelo Noivo Amado, que se entregou Sua vida por ela. Esse amor sacrificial desperta em Sua noiva a inspiração para obedecê-lo, e viver para Ele, até o dia do enlace conjugal.

III – SE ANDARMOS NO ESPÍRITO
A Lei, conforme destacamos reiteradas vezes, é limitada para conduzir o ser humano à santidade, e quando esse fica à mercê dos seus desejos desenfreados o resultado é a morte. Paulo exemplifica essa condição colocando-se como alguém que vive na tensão entre a vida e a morte. Isso acontece porque a pessoa sabe que a Lei é boa, e mais que isso, que está entregue ao pecado, mas não consegue se desvencilhar da força do pecado, que habita dentro dela (Rm. 7.14-25). Existe um conflito interno dentro das pessoas, forças que militam dentro dos indivíduos, contrariando seus interesses (Gl. 5.17). Certo jovem testemunhou ao seu pastor que não conseguia obedecer, e justificou que havia poderes antagônicos dentro dele. O pastor reconheceu que essa era uma realidade atestada nas Escrituras. Ele orientou o jovem  para alimentar o espírito para que esse tivesse vitória sobre os poderes da carne. Se andarmos em espírito, não teremos dificuldade para fazer a vontade boa, agradável e perfeita de Deus (Rm. 12.1,2). Mas se nos entregarmos às obras da carne, o resultado será a ruina, mas aquilo que o homem e a mulher plantarem também ceifarão. Se semearmos no Espírito, colheremos seu fruto, principalmente o amor, que nos conduz à obediência (Gl. 5.22). A religião não tem poder para levar a obediência, pois quanto mais o ser humano se esforça, menos consegue fazer o que deve ser feito (Rm. 7.19-21). Ela pode ser ilustrada através da narrativa da mulher que fez uma focinheira para impedir que seu cão mordesse a vizinhança, mas não impediu que esse continuasse perseguindo as pessoas. A alternativa evangélica, conforme estudaremos mais adiante, será viver no Espírito, e se deixar controlar pela vontade de Deus, não cumprindo as concupiscências da carne (Gl. 5.16).

CONCLUSÃO
A vontade de Deus, expressa inclusive em sua Lei (Torah), não é para destruição das pessoas, muito pelo contrário, ela é sempre boa, agradável e perfeita, pois é a vontade de Deus (Rm. 12.1,2). Mas como o ser humano é incapaz de obedecê-la, essa mesma Lei o coloca em posição de réu, sujeito à condenação. A saída é testemunhada nas palavras do hino 15 (Conversão) da Harpa Cristã: “Mas um dia senti, meu pecado e vi, sobre mim a espada da Lei, apressado fugi, em Jesus me escondi, e abrigo seguro nEle achei”.

MARAVILHOSA GRAÇA





Texto Áureo: Rm. 6.14  Leitura Bíblica: Rm. 6.1-12


INTRODUÇÃO
Em Tt. 2.11 Paulo escreve que “a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens”. Diante de tudo que estudamos até agora, vemos que não há escapatória para a humanidade a não ser através do caminho que Deus mesmo preparou (Jo. 14.6; At. 4.12). Esse é um caminho de graça, isto é, não decorre do merecimento humano. A maravilhosa graça de Deus é um dos temas centrais do evangelho, cantada em hinos antológicos e rimada em poesias sublimes.

I – COMPREENDENDO A GRAÇA

A definição de graça, de acordo com o próprio apóstolo Paulo se encontra em Rm. 11.6: “Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra”. A palavra graça, no sentido paulino, se refere a uma atitude da parte do próprio Deus que provem inteiramente dEle e que não está condicionada a qualquer objeto de Seu favor.  É o que constatamos ao ler Rm. 4.4 “Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida”. Se a salvação é dada com base no que o homem fez, então, a salvação dada por Deus seria o pagamento de uma dívida, mas quando a fé é computada para justiça não há qualquer mérito da parte do homem, pois ele obtém algo que não merece. É válido destacar aqui que a fé não pode ser categorizada como obra, pois o valor da fé não reside nela mesma, mas exclusivamente em seu objeto: Jesus Cristo. A fé, como bem explicita John Stott, é “o olho que o contempla, a mão que recebe a sua dádiva divina, a boca que bebe da água da vida” (p.134). Como bem conclui Hooker, “Deus justifica o que crê – não por causa do valor de sua crença, mas por causa do valor daquele em que ele creu”. Seguindo o argumento de Paulo, entendemos que ‘graça’, charis no grego, é antônima de ‘obras’ ou de ‘lei’ e tem relação especial com a culpa do pecado (Rm. 5.20; 6.1) e, de alguma forma, esta correlacionada com ‘misericórdia’. Em sua misericórdia Deus deixa de nos dar aquilo que merecemos, mas em sua graça Ele nos dá aquilo que não merecemos. Nos escritos não paulinos, essa definição é também adotada em textos como Jo. 1.17; At. 15.11 e Hb. 13.9. Contudo, existe uma possibilidade de perversão dessa definição em direção ao antinomianismo e que é objeto de discussão de Judas (v. 4).


II – A CONTESTAÇÃO DA GRAÇA DIVINA

A doutrina da graça foi fundamental para o desenvolvimento da teologia protestante, contudo, faz-se necessário ter uma noção equilibrada para evitar os extremos tanto do legalismo quanto do antinomianismo.

2.1 Legalismo - Um legalista, de acordo com a definição dicionarizada, é uma pessoa que pensa que pode obter a aprovação de Deus pela conformidade exterior a uma lista de regras e que minimiza a importância dos motivos, da obra de Cristo, da fé e do papel do Espírito Santo na vida cotidiana. Na epístola que Paulo escreveu aos Gálatas ele mostra que o legalismo é uma deturpação do evangelho de Cristo (Gl. 1.7; 3.1-3). A causa dessa deturpação é que, para o legalista, a salvação pode ser obtida através de méritos humanos e não através da graça, por meio da fé, conforme está escrito em Ef. 2.8,9. As práticas legalistas, na verdade, “alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Cl. 2.23).

2.2 Antinomianismo - Por outro lado, o antinomianista, isto é, aquele que se opõe a qualquer tipo de regra, defende que, uma vez salvo, nada mais o homem tem a fazer. Essa também é  outra deturpação do evangelho, pois, no próprio versículo 10, de Ef. 2 diz o mesmo Paulo “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”. Somos salvos pela graça, por meio da fé, mas para andarmos no Espírito, produzindo, por conseguinte, o Seu fruto, que é: “amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei” (Gl. 5.22,23).

III – OS RELACIONAMENTOS DA GRAÇA
Em Tt. 2.11-14 Paulo nos ensina que a graça de Deus, há muito oculta nos conselhos amorosos de Deus (Cl. 1.26; II Tm. 1.9,10), se há manifestada em Cristo, o Verbo que se fez carne (Jo. 1.1,14), por isso, a todos os homens deve ser pregado esse evangelho (Mc. 16.15), pois Deus não deseja que nenhum deles se perca, mas que todos venham ao conhecimento da verdade (I Tm. 2.4). A manifestação da graça de Deus, porém, não deve dar ocasião à carne (Gl. 5.13), por isso, somos instruídos a renunciar, pois o discipulado cristão pressupõe a renúncia (Lc. 9.23): 1) à impiedade, que, no grego, é asebeia e significa “falta de reverência a Deus”, cujo antídoto é o exercício da piedade (I Tm. 4.7,8) e 2) às concupiscências mundanas ou, mais explicitamente, aos desejos desenfreados pelas coisas do mundo (I Jo. 2.15-17; 5.19), alto que somente pode se realizar se andarmos em Espírito (Gl. 5.16). Assim, poderemos viver, neste presente século, sóbria, justa e piamente. Esse modo de viver cristão tem, portanto, uma perspectiva escatológica, “aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” (v. 13). Essa é a graça maravilhosa de Deus, que liberta o pecador (Rm. 6.14), desfazendo os domínios do pecado, dando ao ser humano a verdadeira liberdade em Cristo. Uma liberdade que vai além das dimensões morais, mas que é concretizada pela ética genuinamente cristã, respaldada pelo amor-agape. É nesse contexto que a graça não é barata, como dizia Bonhoeffer, antes preciosa, pois coloca o ser humano em outra posição espiritual, que o transforma de dentro para fora. Somente assim é possível alcançar a santificação, o moralismo farisaico é incapaz de modificar a pessoa humana. É Cristo, pelo poder do Espírito Santo, que torna os santos santos. Isto é, tira-os da condição de meros santos posicionais, para serem transformados em santos aperfeiçoados, progressivamente.
 
CONCLUSÃO
A graça de Deus, em Jesus Cristo, nos alcançou dando-nos o que não merecíamos: a justificação através do derramamento do Seu sangue na cruz do calvário. Como resultado desse exclusivo de Deus, o qual respondemos por meio da fé, somos chamados não à prática legalista ou antinomianista, mas a vivemos a liberdade em amor que Cristo nos Deus. Essa liberdade não deve dar ocasião à carne, mas a uma vida sóbria, justa e piedosa, aguardando a volta gloriosa do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.