SISTEMA DE RÁDIO

  Sempre insista, nunca desista. A vitória é nosso em nome de Jesus!  

O MUNDO DO APÓSTOLO PAULO


Texto Base: Atos 26:1-7

 

 “Disse-lhe, porém, o Senhor: Vai, porque este é para mim um vaso escolhido para levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis, e dos filhos de Israel." (At 9.15)

 

V.P.: “Segundo a sua soberana vontade, Deus usa as circunstâncias para fazer uma grande obra”.

 

Atos 26:

1.Depois, Agripa disse a Paulo: Permite-se-te que te defendas. Então, Paulo, estendendo a mão em sua defesa, respondeu:

2.Tenho-me por venturoso, ó rei Agripa, de que perante ti me haja, hoje, de defender de todas as coisas de que sou acusado pelos judeus,

3.mormente sabendo eu que tens conhecimento de todos os costumes e questões que há entre os judeus; pelo que te rogo que me ouças com paciência.

4.A minha vida, pois, desde a mocidade, qual haja sido, desde o princípio, em Jerusalém, entre os da minha nação, todos os judeus a sabem.

5.Sabendo de mim, desde o princípio (se o quiserem testificar), que, conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu.

6.E, agora, pela esperança da promessa que por Deus foi feita a nossos pais, estou aqui e sou julgado,

7.à qual as nossas doze tribos esperam chegar, servindo a Deus continuamente, noite e dia. Por esta esperança, ó rei Agripa, eu sou acusado pelos judeus.

INTRODUÇÃO

Iniciamos mais um trimestre de estudos da Palavra de Deus por ocasião da Escola Bíblica Dominical, o quarto e último trimestre de 2021. Trataremos da vida e do ministério de um dos maiores personagens do Novo Testamento usado por Deus: o apóstolo Paulo. É uma oportunidade especial para aprendermos e colocarmos em prática princípios eternos que nortearam a vida desse mui digno homem de Deus. Sem dúvida, Saulo de Tarso, o apóstolo Paulo, é um dos personagens bíblicos mais conhecidos por todos os cristãos; ele é considerado o maior líder do cristianismo. Nesta primeira Aula, vamos estudar sobre o “mundo do apóstolo Paulo”; trataremos, de forma bem superficial, da atuação do apóstolo Paulo nos três “mundos” de então: o romano, o grego e o judeu. Como cidadão romano, ele teve certa liberdade para peregrinar dentro do império e propagar as Boas Novas de Salvação em Cristo Jesus aos judeus e ao povo gentil (romanos e gregos). Se comunicou na língua predominante da época, o grego koinê, bem como fez uso da vasta literatura de seu tempo. À luz do mundo político, cultural e religioso vivido por esse grande apóstolo de Cristo, o que podemos aplicar na pregação do Evangelho no mundo de hoje, cujas circunstâncias são diametricamente diferentes?

I. O MUNDO DE PAULO NO IMPÉRIO ROMANO

1. Entendendo a origem de Paulo

Paulo, nome romano de Saulo, nasceu em Tarso na Cilícia (Atos 16:37; 21:39; 22:25).  Esta era uma cidade universitária que ficava próxima da costa nordeste do Mar Mediterrâneo. Segundo o próprio apóstolo, Tarso era uma “cidade não pouco célebre na Cilícia” (Atos 21:39); ao contrário, era um grande centro da cultura grega. Embora tenha nascido um cidadão romano, Paulo era um judeu da Dispersão, um israelita circuncidado da tribo de Benjamin, e membro zeloso do partido dos Fariseus (Rm.11:1; Fp.3:5; Atos 23:5).

Desde seu nascimento até seu aparecimento em Jerusalém como perseguidor dos cristãos, conforme os relatos do livro de Atos dos Apóstolos, há pouca informação sobre a vida do apóstolo Paulo. Sobre o seu nascimento, não temos data precisa; talvez tenha ocorrido no ano 5 a.C. Dessa forma, quando o nosso Senhor foi crucificado, Paulo poderia ter entre 30 e 35 anos de idade.

Paulo foi educado em Jerusalém, sob o ensino do renomado doutor da lei, Gamaliel, neto de Hillel. Paulo conhecia profundamente a cultura grega. Ele também falava o aramaico, era herdeiro da tradição do farisaísmo, estrito observador da Lei e mais avançado no judaísmo do que seus contemporâneos (Gl.1:14; Fp.3:5,6). Considerando todos estes aspectos, pode-se afirmar que sua família desfrutava de posição proeminente na sociedade.

O apóstolo Paulo possuía cidadania romana. Sobre isso, ele próprio afirmou ser cidadão romano de nascimento (Atos 22:28). Provavelmente essa declaração indica que sua cidadania foi herdada de seu pai. Estima-se que naquele tempo pelo menos dois terços da população do Império Romano não possuíam cidadania romana. Não se sabe ao certo como o pai do apóstolo conseguiu tal cidadania. Algumas pessoas importantes e abastadas conseguiam comprar a cidadania (Atos 22:28); outras, conseguiam tal cidadania ao prestar algum trabalho relevante ao governo romano. A cidadania romana concedia alguns privilégios, dentre os quais citamos:

Ø  A garantia do julgamento perante César, se exigido, nos casos de acusação.

Ø  Imunidade legal dos açoites antes da condenação.

Ø  Não poderia ser submetido à crucificação, a pior forma de pena de morte da época.

2. A geografia do mundo de Paulo

À época de Paulo o mundo estava sob o domínio do Império Romano, que se estendia do Rio Reno para o Egito, chegava à Grã-Bretanha e à Ásia Menor. Desta forma, estabelecia uma conexão com a Europa, a Ásia e África. Assim, era considerada a maior civilização da história ocidental. Durou cinco séculos - começou em 27 a.C. e terminou em 476 d.C. Até 117 d.C., ao menos 6 milhões de quilômetros quadrados estavam sob o domínio do Império Romano. Segundo os historiadores, sob o domínio deste poderoso Império, estavam 6 milhões de habitantes. Roma, nessa fase, segundo os historiadores, foi habitada por 1 milhão de habitantes. Entre os pontos fundamentais para o sucesso do império estava o exército, que era profissional e atuava como uma legião. Sob o comando de astutos generais, Roma expandiu o poderio para o Mediterrâneo.

Conforme historiadores, os imperadores romanos contemporâneos de Paulo, desde seu nascimento até sua morte, foram: Tibério, Calígula, Claudio e Nero, o seu carrasco.

Devido à grande extensão geográfica do Império, e a permissão para que os povos dominados praticassem a sua própria religião, e devido a chamada "pax romana", a geografia e os meios de transporte urbanos e do campo, contribuíram para a propagação do Evangelho. Segundo informes da história, a malha viária abrangia em torno de 300 mil quilômetros, sendo que 90 mil quilômetros apresentavam condições excelentes para viajar. As estradas do império, bem como as vias marítimas, foram de grande importância para a expansão da fé cristã. Deus permitiu todas estas possibilidades para que os seguidores de Cristo difundissem o santo Evangelho por todo o império. Na verdade, os maiores inimigos do apóstolo Paulo não foram os dominadores e governantes romanos, mas os próprios judeus; estes foram os mais danosos inimigos e perseguidores do apóstolo Paulo, desde a sua conversão.

Portanto, a geografia do mundo paulino teve papel essencial para a implantação das primeiras igrejas. Por isso, devemos pensar nas oportunidades que Deus nos dá para a eficiência da evangelização urbana e do campo. É claro que o mundo de hoje é totalmente diferente daquele; vivemos num mundo globalizado e de uma dinâmica inteligente e célere. Para se falar com alguém do outro lado do planeta não se demora mais do um minuto, e ao vivo; isto no mundo de Paulo era inimaginável. Os recursos que temos para evangelizar para o mundo inteiro está na palma da nossa mão. É difícil não acreditar que o evangelho não esteja no mundo inteiro, a não ser naqueles lugares onde ainda não há meios de comunicação rápida e inteligente, como a internet. Fiquei impressionado quando soube que no ano de 2019 existia mais de um milhão de crentes no Irã, e de mais cem milhões de crentes na China. Isto é um feito extraordinário, pois nestes países o cristianismo é perseguido com muita fúria. Deus seja louvado! Oremos pela igreja na China e no Irá.

3. Paulo, chamado para evangelizar aos gentios

A conversão de Paulo e seu chamado para evangelizar aos gentios foram os fatos mais marcantes na história da Igreja depois do Pentecostes. Lucas ficou tão impressionado com a importância da conversão de Paulo, que a relata três vezes em Atos (cap.:9,22,26). O primeiro aspecto da mudança na vida do apóstolo Paulo pode ser percebido quando, imediatamente, ele respondeu à voz de Cristo: “Senhor, que queres que eu faça?” (Atos 9:6). Essa pergunta marcou o começo de seu novo relacionamento com Cristo (Gl.2:20) e a disposição de cumprir qualquer missão que lhe fosse dada. Nenhum homem exerceu tanta influência no evangelismo como o apóstolo Paulo.

Jesus trabalhou na vida de Paulo antes de ele se render no caminho de Damasco; vários fatos ocorreram para que ele enxergasse a Verdade. Paulo era como um touro bravo que recalcitrava contra os aguilhões (Atos 26:14). Ele teve que ser derrubado como se fosse um touro bravo. De acordo com a própria narrativa de Paulo, Jesus lhe disse: “Dura cousa é recalcitrares contra os agulhões” (Atos 26:14). Jesus comparou Paulo a um touro jovem, forte e obstinado.

Antes de se render no caminho de Damasco, Jesus espetava sua consciência quando ele viu Estêvão sendo apedrejado e pediu ao Senhor para perdoar seus algozes. A oração de Estevão latejava na alma de Paulo. Também, Jesus espetava a consciência de Paulo quando ele prendia os cristãos e dava seu voto para matá-los, e eles morriam cantando.

Mas, como esse “touro” selvagem não amansou com as espetadas, Jesus apareceu a ele, o derrubou ao chão e o subjugou totalmente no caminho de Damasco. Paulo precisou ser jogado ao chão e ficar cego para se converter. Na época de Daniel, Nabucodonosor precisou ir para o campo comer capim com os animais para se dobrar e reconhecer que só o Senhor é Deus.

Enfim, o “touro bravo” foi rendido e os seus olhos espirituais foram abertos, e sua consciência foi despertado para reconhecer que Jesus é o Senhor. A sua pergunta – “Senhor, que queres que eu faça?” (Atos 9:6) -, logo foi respondida: ele seria chamado para levar as Boas Novas do Evangelho aos gentios (Atos 9:15), Boas Novas estas que chegaram até nós. O próprio Senhor Jesus disse que Paulo fora escolhido para levar sua Palavra aos gentios – “este é para mim um vaso escolhido para levar o meu nome diante dos gentios...” (Atos 9:15). Um ministério que lhe traria muito sofrimento por amor ao nome de Jesus – “E eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome” (Atos 9:16).

Agora, o perseguidor seria perseguido; e o Livro de Atos mostra que ele foi severamente perseguido: foi perseguido em Damasco, rejeitado em Jerusalém, apedrejado em Listra, preso e açoitado em Filipos, escorraçado de Tessalônica e Bereia, chamado de tagarela em Atenas e de impostor em Corinto, foi preso em Jerusalém e acusado em Cesareia, foi levado preso a Roma e mais tarde foi decapitado pela guilhotina do imperador Nero.

II. O MUNDO CULTURAL DE PAULO

1. A língua mundial daqueles dias era o grego

Na época de Paulo o hebraico e o aramaico eram as línguas nativas; todavia, em virtude do domínio do império romano, que impôs como língua comum do império o grego koiné, então prevaleceu entre o povo do médio-oriente esta língua. O Novo Testamento foi escrito no grego koinê, e o apóstolo Paulo falava e escrevia fluentemente tanto o grego como o hebraico e o aramaico.

Mas, o que era a língua koiné? Koiné é a palavra grega para "comum". Muitas pessoas podem reconhecer a palavra koiné da palavra koinonia, que significa "comunhão"; comunhão é ter algo em comum. Portanto, o grego koiné era simplesmente a língua comum do mundo mediterrâneo no primeiro século. Quando Alexandre, o Grande, conquistou o "mundo civilizado" de seu tempo, ele espalhou a língua e a cultura gregas. Assim como o inglês tem se tornado hoje a língua internacional, o grego se tornou a "língua internacional" mais comum e difundida da época. Visto que a maioria das pessoas conseguia entender o koiné, ele era o único adequado para proclamar o evangelho em todo o mundo. Obviamente Deus estava nesse negócio, pois lhe interessava que sua Palavra fosse difundido e compreendida numa língua comum.

O grego koiné não era apenas comum no sentido de ser amplamente utilizado por todo o Império Romano, mas também era comum no sentido de que não era a língua das elites intelectuais e acadêmicas. O grego clássico era usado pela classe instruída; o grego koiné era a língua do trabalhador, do camponês, do vendedor e da dona de casa - não havia nada de pretensioso nele; era o vernáculo, ou linguagem vulgar, da época. As grandes obras da literatura grega foram escritas no grego clássico. Nenhum erudito hoje se importaria em estudar qualquer coisa escrita em grego koiné, exceto pelo fato de que é a língua do Novo Testamento. Deus queria que Sua Palavra fosse acessível a todos e escolheu a linguagem comum da época, o koiné. Deus faz uso de uma linguagem comum e humilde para expressar as verdades incríveis do Evangelho.

2. O mundo cultural do apóstolo Paulo

No mundo da época de Paulo, que estava sob o domino do Império Romano, prevalecia a cultura grega, cultura essa que estava intimamente associada à religião e se manifestava por meio da literatura, da música e do teatro. As manifestações artísticas eram utilizadas para homenagear os feitos dos heróis e de sua relação com os deuses gregos que eram adorados no monte Olimpo. Como bem diz o Pr. Elienai Cabral, “o Império Romano respeitava a diversidade religiosa, desde que se respeitassem os deuses do império. Em Roma, havia os cultos a entidades gregas como Eteusis, Dionísio, Atis, que se integravam com divindades egípcias como Osíris, Ísis, Serapis, bem como as divindades orientais Mitras e Asclépio, uma divindade de cura”.

Essa liberdade de religião que era adotada pelo Império Romano facilitou sobremaneira para que o apóstolo Paulo tivesse pleno acesso a todos os lugares e, de forma inteligente, difundisse as Boas Novas do Evangelho, como ele fez de forma eficiente no areópago de Atenas (Atos 17:15-34). Observe neste texto que o apóstolo não chegou criticando a religião e os falsos deuses que eram adorados na Grécia e nos diversos lugares do Império Romano. É isto que um bem treinado pregador transcultural deve agir. Bem diz o pr. Elienai Cabral: “a realidade atual das diversidades culturais e religiosas pode abrir caminhos para que, de maneira inteligente, evangelizemos o mundo, nos termos do apóstolo Paulo, no areópago de Atenas”.

3. A influência da filosofia grega

A liberdade religiosa e cultural no Império Romano foram sobremodo importante, mas a influência da cultura da época expôs suas raízes em muitos cristãos incautos que deram espaços para essas raízes daninhas entrarem em suas vidas; não foram vigilantes o suficiente para manterem suas vidas submissas à doutrina apostólica aplicada.

À medida que o cristianismo se expandia no mundo romano, a Igreja Primitiva enfrentava muitas questões e desafios novos, e os apóstolos e profetas do Novo Testamento não mediram esforços para orientar e advertir o novo povo de Deus a ficarem livres da influência cultural predominante da época, principalmente o gnosticismo, que era multo forte e que influenciou o pensamento de muitos cristãos do primeiro século. O gnosticismo era uma espécie de filosofia religiosa que tentava fazer um concubinato entre a fé cristã e a filosofia grega. Os gnósticos, influenciados pelo dualismo grego, acreditavam que a matéria era essencialmente má e o espírito essencialmente bom. Esse engano filosófico desembocou em grave erro doutrinário. Os gnósticos diziam que o corpo, sendo matéria, não podia ser bom. Por conseguinte, negavam a encarnação de Cristo. Muitos cristãos incautos caíram nesta arapuca.

As principais crenças do gnosticismo são: a impureza da matéria e a supremacia do conhecimento. O gnosticismo ensinava que a salvação podia ser obtida por intermédio do conhecimento, em vez da fé. Esse conhecimento era esotérico e somente poderia ser adquirido por aqueles que tinham sido iniciados nos mistérios do sistema gnóstico.

O gnosticismo ensinava que o corpo era uma vil prisão em que a parte racional ou espiritual do homem estava encarcerada, e da qual precisava ser libertada pelo conhecimento (gnosis). Os gnósticos acreditavam na salvação pela iluminação. Essa iluminação podia ser mediante a comunicação de um conhecimento esotérico em alguma cerimônia secreta de iniciação.

Diante de tão vil perseguição, “os líderes da Igreja da época tiveram de refutar com veemência as teorias do gnosticismo, cujos adeptos queriam misturá-las com a doutrina pura de Cristo. Naturalmente, pelo fato de ter vivido naquele mundo, Paulo teve de fortalecer a doutrina cristã sobre Deus, fé, Jesus, Espírito Santo, graça e salvação. O apóstolo, indiscutivelmente, se tornou o grande defensor do Evangelho de Cristo”.

Como proclamadores do Evangelho, devemos pensar em estratégias a fim de que nossos jovens e adolescentes, e também os adultos poucos maduros na fé, possam expressar com firmeza e sabedoria as razões da fé diante dos não crentes (1Pd.3:15).

III. O MUNDO RELIGIOSO DE PAULO

1. Paulo se identifica como judeu

Paulo era judeu por nascimento. Seus pais eram judeus. O sangue que corria em suas veias era o mesmo que corria nas veias do patriarca Abraão. Em sua defesa em Jerusalém, após sua dramática prisão, teve a oportunidade de se dirigir à multidão alvoroçada, dizendo: “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia...” (Atos 22:3). Ao combater a ideia errada dos falsos mestres judaizantes, que nutriam uma falsa confiança na sua linguagem judaica, Paulo respondeu: “Bem que eu poderia confiar também na carne. Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus...” (Fp.3:4,5). Paulo era um judeu puro de sangue. Um judeu da gema. Procedia da mais importante tribo israelita, a tribo de Benjamim.

2. Paulo foi criado dentro da fé judaica

Paulo nasceu em Tarso da Cilícia. Seus pais o educaram na fé judaica, uma vez que foi circuncidado ao oitavo dia (Fp.3:5). Desde sua infância, bebeu o leite da piedade e aprendeu os preceitos da lei de Deus. Jamais foi um jovem devasso. O zelo sempre ardeu em seu peito. Seu propósito em servir a Deus foi o vetor que governou sua vida. Dominava com grande desenvoltura o conhecimento da Lei e as opiniões mais importantes dos grandes mestres de sua época. Ele se destacava dentro do judaísmo. Chegou mesmo a declarar: “E, na minha nação, quanto a judaísmo, avantajava-me a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais” (Gl.1:14).

Perante grande multidão em Jerusalém, Paulo dá seu testemunho: “...criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da Lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus, assim como todos vós o sois no dia de hoje” (Atos 22:3). Jerusalém era a cidade santa. Lá estavam os escribas e doutores da Lei. Lá estavam o Templo e os sacrifícios. Lá estavam a Lei e as cerimônias. Lá estavam os sacerdotes e os rabinos. Lá estavam o sinédrio. Essa cidade transpirava a religião judaica. Tudo girava em torno do sagrado. Nessa cidade, Paulo foi instruído aos pés de Gamaliel, o maior e o mais ilustre rabino daquela época, homem culto, sábio e piedoso. Ele foi instruído segundo a exatidão da Lei dos seus antepassados. Conhecia bem de perto as tradições do seu povo. Sabia de cor as inúmeras regras e preceitos criados pelos anciãos. A tradição oral, fruto da interpretação meticulosa e extravagante dos escribas, era observada cuidadosamente por esse jovem brilhante.

Paulo era fariseu, membro da seita mais rigorosa dos judeus. Escrevendo aos filipenses, descreveu sua vida pretérita nestes termos: “...quanto à lei, [eu era] fariseu...” (Fp.3:5). Diante do rei Agripa, quando estava sendo acusado, em Cesareia, disse: “...porque vivi fariseu conforme a seita mais severa da nossa religião” (Atos 26:5). Como fariseu, Paulo era zeloso da Lei. Como fariseu, era extremamente zeloso das tradições de seus pais (Gl.1:14). Como fariseu, frequentava assiduamente a sinagoga. Como fariseu, dava o dízimo criteriosamente e jejuava regularmente. Ele chegou a afirmar que, quanto à justiça que há na Lei, era irrepreensível (Fp.3:6). Os fariseus eram separados. Eles compunham o grupo religioso mais ortodoxo de Israel. Os fariseus estavam de lado oposto dos saduceus, grupo religioso que negava a ressurreição e a existência dos anjos.

Paulo era membro do sinédrio judaico, que era governado principalmente pelos sacerdotes, da seita dos saduceus. O sinédrio era o concilio maior dos judeus, composto de setenta homens maduros, cuja função principal era legislar e julgar a vida religiosa e moral do povo judeu. Paulo era o maior embaixador do sinédrio judaico no sentido de promover a fé de seus pais. Ser membro do sinédrio era ser considerado um dos principais dos judeus (João 3:1). Este posto de honra dava a Paulo projeção e grande destaque na sociedade. Era um homem respeitado pelo seu conhecimento, pela sua religiosidade e pelo zelo com que se devotava à causa do seu povo.

3. O mundo: palco da mensagem de Paulo ao povo gentílico

Paulo tornou-se o maior embaixador de Cristo e o maior pregador do evangelho (Atos 9:20-22). Deus mesmo escolheu Paulo para levar o evangelho aos gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel (Atos 9:15). Ele pregou nas sinagogas de Damasco afirmando que Jesus é o Filho de Deus (Atos 9:20) e, mais tarde, demonstrando que Jesus é o Cristo (Atos 9:22). Paulo pregou a tempo e fora de tempo; pregou em prisão e em liberdade; pregou com saúde ou doente; pregou nos lares, nas sinagogas, no templo, nas ruas, nas praças, na paria, em navio, nos salões dos governos, nas escolas; pregou com senso de urgência, com lágrimas e no poder do Espírito Santo. Aonde Paulo chegava, os corações eram impactados com o evangelho. Ele pregava usando não apenas palavras de sabedoria, mas com demonstração do Espírito Santo e de poder (1Co.2:4; Tt.1:5).

Paulo foi o maior evangelista, missionário, pastor, pregador, teólogo e plantador de igrejas da história do cristianismo. Ele iniciou igrejas na região da Galácia, na Europa e na Ásia. Não apenas fundou igrejas, mas as pastoreou com intenso zelo, profundo amor e grande senso de responsabilidade. Pesava sobre ele a preocupação com todas as igrejas (2Co.11:28). Ele pregou em Israel, na Ásia e na Europa. Por ter os judeus rejeitado o Evangelho, o mundo dos gentios foi o palco que o Espírito Santo montou para que Paulo pregasse o nome de Jesus e estabelecesse novas igrejas por onde passasse. Nosso Senhor continua a chamar pessoas para o ministério missionário; elas precisam estar sensíveis à voz do Espírito Santo a lhes chamar.

CONCLUSÃO

O mundo que o apostolo Paulo viveu era bem diferente do de hoje; a cultura, os meios de comunicação, a dinâmica de locomoção, da economia, do relacionamento entre as pessoas são muito diferentes; e a pandemia do covid-19 dificultou ainda mais a pregação e implantação de igrejas. Contudo, a mesma carência de salvação que o mundo (a população) de Paulo apresentava, o mundo de nossa época necessita, talvez muito mais ainda. Urge que preguemos o evangelho de Salvação através dos meios que dispomos (que não são poucos) e sejamos sensíveis à chamada do Espírito Santo, pedindo a Deus que nos mostre estratégias inovadoras nestes tempos difíceis em que vivemos.


 

O CATIVEIRO DE JUDÁ

 

Texto Base: 2 Reis 24:18-20; 25:1-10

 

“Porém zombaram dos mensageiros de Deus, e desprezaram as suas palavras, e escarneceram dos seus profetas, até que o furor do Senhor subiu tanto, contra o seu povo, que mais nenhum remédio houve” (2Cr.36:16).

V.P.: ”Todo o ser humano se torna cativo de suas escolhas e das consequências delas”.

2 Reis 24:

18.Tinha Zedequias vinte e um anos de idade quando começou a reinar e reinou onze anos em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Hamutal, filha de Jeremias, de Libna.

19.E fez o que era mal aos olhos do Senhor, conforme tudo quanto fizera Jeoaquim.

20.Pois assim sucedeu por causa da ira do Senhor contra Jerusalém e contra Judá, até os rejeitar de diante da sua face; e Zedequias se revoltou contra o rei de Babilônia.

2 Reis 25

1.E sucedeu que, no nono ano do reinado de Zedequias, no mês décimo, aos dez do mês, Nabucodonosor, rei de Babilônia, veio contra Jerusalém, ele e todo o seu exército, e se acamparam contra ela, e levantaram contra ela tranqueiras em redor.

2.E a cidade foi sitiada até ao undécimo ano do rei Zedequias.

3.Aos nove dias do quarto mês, quando a cidade se via apertada da fome, nem havia pão para o povo da terra,

4.Então, a cidade foi arrombada, e todos os homens de guerra fugiram de noite pelo caminho da porta que está entre os dois muros junto ao jardim do rei (porque os caldeus estavam contra a cidade em redor); e o rei se foi pelo caminho da campina.

5.Porém o exército dos caldeus perseguiu o rei e o alcançou nas campinas de Jericó; e todo o seu exército se dispersou.

6.E tomaram o rei e o fizeram subir ao rei de Babilônia, a Ribla; e procederam contra ele.

7.E os filhos de Zedequias degolaram diante dos seus olhos; e vazaram os olhos a Zedequias, e o ataram com duas cadeias de bronze, e o levaram a Babilônia.

8.E, no quinto mês, no sétimo dia do mês (este era o ano décimo nono de Nabucodonosor, rei de Babilônia), veio Nebuzaradã, capitão da guarda, servo do rei de Babilônia, a Jerusalém.

9.E queimou a Casa do Senhor e a casa do rei, como também todas as casas de Jerusalém; todas as casas dos grandes igualmente queimou.

10.E todo o exército dos caldeus, que estava com o capitão da guarda derribou os muros em redor de Jerusalém.

INTRODUÇÃO

Com esta Aula concluímos o 3º trimestre letivo da EBD do ano de 2021; trataremos do Cativeiro de Judá – reino do Sul. Apesar de haver em Judá alguns reis tementes a Deus e de reformas terem sido feitas em momentos oportunos, conforme estudamos em lições anteriores, o povo nunca mudou, efetivamente, de vida; continuaram com suas atitudes ímpias. Então, Deus finalmente usou o império Babilônico, sob o governo de Nabucodonosor, para conquistar Judá, destruir Jerusalém e levar o povo ao cativeiro Babilônico.

Muitos anos antes, Deus tinha punido o reino do Norte levando-o ao cativeiro Assírio. Esse cativeiro foi o claro resultado dos pecados cometidos contra Jeová (2Rs.17:7). O povo tornou-se infiel para com o Senhor, que os livrara do Egito, adorando e servindo a outros deuses (2Rs.17:15-17). Fizeram isso apesar dos constantes avisos dos profetas de Deus de que tal atitude consistia em grave traição. O resultado inevitável foi o julgamento de Deus, um juízo que se manifestou na forma de exílio, expulsando os israelitas de sua terra prometida.

Mas Judá não aprendeu com esse juízo de Deus contra o reino do Norte - “Até Judá não guardou os mandamentos do SENHOR, seu Deus; antes, andaram nos estatutos que Israel fizera” (2Rs.17:19). Ezequias e Josias fizeram muitas reformas, que trouxeram o povo a um grande avivamento durante o reinado deles, mas isto não foi o bastante para converter permanentemente a nação a Deus. Em sua longanimidade, Deus demonstrou sua misericórdia por Judá dando ao povo, diante do juízo merecido, repetidas oportunidades para arrependimento. Mas, infelizmente, eles viraram as costas para o Eterno. Logo, o juízo de Deus seria inevitável; Ele utilizou o pior déspota da época para punir o reino do Sul. Judá foi derrotada pelos babilônios, e a maioria dos judeus foram levados para o exílio; todavia, não foram espalhados por outras nações, e a terra não foi repovoada. Às vezes não aprendemos com os exemplos de pecado e tolice que ocorrem à nossa volta.

O fim do reino de Judá foi protagonizado por quatro reis:

Ø Joacaz, filho do rei Josias (2Cr.36:1).

Ø Jeoaquim, também filho do rei Josias; ele reinou por ocasião do primeiro grupo de prisioneiros levados para Babilônia, em 605 a.C.(2Cr.36:5,6).

Ø Joaquim, filho de Jeoaquim (2Cr.36:8), que reinou três meses e dez dias (2Cr.36:9); ele vivenciou o cerco de Jerusalém por Nabucodonosor, que resultou em dez mil pessoas presas, em 597 a.C. (2Cr.36:9,10).

Ø Zedequias, que foi entronizado por Nabucodonosor no lugar de Joaquim (2Cr.36:10,11). Após alguns poucos anos, Zedequias rebelou-se contra o rei da Babilônia, e este novamente cercou Jerusalém durante dezoito meses, resultando na queda definitiva de Jerusalém, em 586 a.C.

A tragédia do exílio não pode ser interpretada como apenas a deportação de um povo para outra terra, ou a destruição de uma cidade e seu santuário central. Na verdade, Deus havia se retirado do meio de seu povo, uma ausência simbolizada por uma das visões de Ezequiel, na qual a Shekinah movia-se do Templo (Ezequiel - cap 1). Depois de cumprir o tempo determinado por Deus (setenta anos) o povo judeu foi permitido voltar para a sua terra; porém, o fim do cativeiro dos judeus em 539/538 não pode ser sinônimo do fim do exílio, porque Jeová não retornou na ocasião para habitar no Templo. Pelo contrário, os profetas vaticinaram que seu retorno aconteceria apenas na era escatológica, quando o próprio Messias seria a glória de Deus (Ag.2:7-9).

1. O DECLÍNIO ESPIRITUAL DE JUDÁ

1. As advertências dos profetas

Deus foi paciente com Judá - enviou profetas, principalmente o profeta Jeremias, para advertir o povo acerca do iminente juízo de Deus sobre a nação, caso não houvesse uma conversão nacional; porém, as injustiças sociais, a idolatria e as terríveis transgressões do povo e dos líderes foram se intensificando cada vez mais (Jr.11:9-12). O avanço implacável do mal entre o povo de Deus, chegara ao ponto culminante irreversível; transbordara sua medida de iniquidade (ler Jr.5:1). O recurso único de Deus foi aplicar um julgamento, que dissolveu a nação levando-a ao cativeiro; restou apenas um remanescente para presenciar o cumprimento das promessas de Deus.

Como compreender que o povo de Judá não atentou ao que acontecera há pouco anos com seus irmãos do reino do Norte! Analisando a história de Israel e de Judá, nota-se que a liderança fora a maior culpada pela apostasia do povo - os sacerdotes não conseguiam enxergar o Senhor; os que ensinavam a lei nem mesmo o conheciam; os pastores prevaricaram contra o Senhor (prevaricar significa deixar de fazer o que é certo ou obrigatório, sabendo o que deve ser feito; não é um erro advindo do desconhecimento; o conhecimento existe, mas a intenção é desobedecer); os profetas profetizavam por Baal, um deus falso que já fora desmascarado em Israel (Jr.2:8) - Os sacerdotes não disseram: Onde está o Senhor? E os que tratavam da lei não me conheceram, e os pastores prevaricaram contra mim, e os profetas profetizaram por Baal e andaram após o que é de nenhum proveito”. Uma liderança corrompida, certamente, corromperá os seus liderados.

Deus lamentou a atitude insana do seu povo (Jr.2:11-13,19) - “Houve alguma nação que trocasse os seus deuses, posto não serem deuses? Todavia, o meu povo trocou a sua glória pelo que é de nenhum proveito. Espantai-vos disto, ó céus, e horrorizai-vos! Ficai verdadeiramente desolados, diz o Senhor. Porque o meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas. A tua malícia te castigará, e as tuas apostasias te repreenderão; sabe, pois, e vê, que mau e quão amargo é deixares ao Senhor, teu Deus, e não teres o meu temor contigo, diz o Senhor Jeová dos Exércitos”.

Essa apostasia foi denunciada por Jeremias, que não poupou nem mesmo os líderes da nação. Isto é necessário, pois se a liderança não estiver de acordo com a vontade de Deus nem conhecer o Senhor, com certeza conduzirá o povo por caminhos que Deus abomina.

Essa mensagem adverte a todo o povo de Deus da Nova Aliança, a Igreja (1Co.10:1-12). Deus removerá do seu reino todos aqueles que deixarem de obedecer fielmente à sua Palavra e desprezar o seu amor. Os resultados de abandonar a Deus são o castigo, a ruína, o sofrimento e a rejeição final (cf. Ap.2:5; 3:15,16).

2. Previsão dos acontecimentos que levaram Judá ao exílio

Dos profetas que advertiram Judá sobre os seus terríveis pecados, Jeremias foi o mais importante desse período. Ele iniciou suas atividades proféticas no reinado de Josias e deu continuidade durante os quatro reinos seguintes (Jr.1:1-3). Jeremias tinha uma firme convicção de que o Cativeiro seria rápido e inevitável, se não houvesse arrependimento da nação; daí, sua preocupação era falar o que Deus queria que ele falasse, e não o que o povo queira ouvir.

A visão da vara de amendoeira (Jr.1:11) revelou o início do juízo de Deus, porque a amendoeira é uma das primeiras árvores a florescer na primavera. Significa que Deus viu os pecados de Judá e das nações, e executaria um juízo rápido e certo. A “panela a ferver” (Jr.1:13) voltada para o Norte, derramando-se sobre Judá, representava a Babilônia trazendo o forte juízo de Deus contra o povo de Judá (Jr.1:14).

No tempo de Jeremias havia falsos profetas, que pregavam mensagens “bonitas”, que vendiam ilusões, que enganavam o povo. O profeta Jeremias foi usado para alertar o povo:

“Assim diz o Senhor dos Exércitos: não deis ouvidos às palavras dos falsos profetas, que entre vós profetizam; ensinam-vos vaidades; falam da visão do seu coração, não da boca do Senhor. Não mandei os profetas, e, todavia, eles foram correndo; não lhes falei a eles, e, todavia, profetizaram” (Jr.23:16,21).

Esses falsos profetas, esses profissionais da religião, enganavam o povo para tirar proveito pessoal. Não foram chamados, não tinham compromisso com Deus, não conheciam Sua Palavra. Falavam aquilo que o povo queria ouvir, e eram aplaudidos. Pregavam abundância de bênçãos, de prosperidade, de libertação material para um povo afundado no pecado e na idolatria (Jr.5:12; 8:11; 14:13,15).

Pelo visto, a base para esta falsa mensagem de esperança era que a nação possuía a lei mosaica (Jr.8:8) e o Templo do Senhor estava entre eles (Jr.7:4). Todavia, o Senhor ressaltou que não achou os sacrifícios aceitáveis (Jr.6:20). Desde o dia de Moisés, a obediência sincera era mais fundamental do que o ritual sacrificatório (Jr.7:11-23). Deus também deixou claro que a presença do Templo não era garantia de segurança. Para apoiar o argumento, destacou Siló, que outrora fora o local do Tabernáculo, o qual foi mais tarde abandonado por Deus. Se o povo não se arrependesse, o Monte do Templo seria destruído como fora Siló (Jr.7:12-14; 26:6,9). Isso foi cumprido literalmente.

A religiosidade para Deus é inútil. Em Atos 26:5, o apóstolo Paulo, embora se dizendo antigo integrante da seita dos fariseus, faz questão de dizer que havia, entre os judeus, uma “religião”, ou seja, um sistema dominante que prescrevia como o povo de Israel deveria se relacionar com o seu Deus, um sistema doutrinário completo e predominante que, aliás, até hoje existe entre nós, a saber, o judaísmo.

O mesmo se dá na Carta do apóstolo Tiago, que mostra que as pessoas procuram, via de regra, ser religiosas, ainda que esta religiosidade, no mais das vezes, não implique num correto relacionamento com Deus (Tg.1:26,27). A religião, portanto, apresenta-se como uma organização da vida humana em sociedade, com o intuito de definir um relacionamento com a divindade, mas que pode ser falsa, se esta ordenação se der fora dos princípios e regras revelados pelo próprio Deus ao homem.

3. Motivos que levaram Judá ao cativeiro

O principal motivo foi a apostasia (Jr.2:19). Apostasia deriva-se da expressão grega “apostásis”, que significa afastamento. Israel conhecia Deus e tinha experiência com Ele. Esta é uma condição básica para que alguém possa conhecer o pecado da apostasia. O apóstata tem que tomar sua decisão de forma consciente e premeditada. Apesar de tudo que Israel viu Deus fazer no Egito, no deserto durante quarenta anos, e em Canaã, mesmo assim Israel persistiu sendo rebelde, desobediente, duro de coração, incrédulo.

No Antigo Testamento, com relação ao povo de Israel, a apostasia era considerada adultério espiritual. Israel era chamado de “esposa de Jeová” (Jr.31:32; Is.54:5). Sempre que Israel seguia a outros deuses, ou se curvava diante de ídolos, era acusado de apostasia. Esta foi, inclusive, a causa principal do cativeiro babilônico, que tanto o profeta Jeremias advertiu.

Quando Israel se instalou definitivamente na terra prometida, o líder Josué conclamou o povo a tomar uma decisão: ou servir ao Senhor ou servir aos falsos deuses da região, pois era impossível servir ao Senhor e ao mesmo tempo aos falsos deuses. O povo respondeu que, em vista do que o Senhor havia feito por eles, eles O serviriam também – “Então respondeu o povo, e disse: longe esteja de nós o abandonarmos ao Senhor para servirmos a outros deuses” (Josué 24:16). Mas Josué ponderou que, se não tomassem essa decisão, corriam o risco de serem consumidos pelo Senhor, se mais tarde eles O deixassem para servir a deuses estranhos. Ele é um Deus santo e zeloso que não perdoaria a sua transgressão nem os seus pecados. Mas o povo confirmou a sua decisão, e Josué mandou que jogassem fora os deuses estranhos que havia entre eles e se dedicassem ao Senhor Deus de Israel (cf. Josué 24:20). E o povo novamente disse: “... ao Senhor serviremos” (Josué 24:21). E para confirmar o compromisso que o povo estava fazendo naquele momento solene, Josué lhes falou: “Sois testemunhas contra vós mesmos de que vós escolhestes o Senhor, para o servir. E disseram: Somos testemunhas” (Josué 24:22). E disseram mais ainda: “Serviremos ao Senhor, nosso Deus, e obedeceremos à sua voz” (Josué 24:24).

Por pouco tempo, o povo de Deus confiou nEle com profunda devoção. No início, a comunhão com Deus era tão profunda que a nação era considerada a esposa do Senhor (Jr.31:3; Is.54:5). Conquanto o povo tenha declarado por três vezes o compromisso de servir ao Senhor, não cumpriu o que prometeu; Israel se afastou de Jeová. Logo Deus o acusaria de quebrar seu pacto com Ele (Juízes 2:2,3).

O povo da geração de Jeremias seguiu nos passos dos antepassados rebeldes (Jr.11:9,10). Afastaram-se da lei de Deus (Jr.9:13) e ostensivamente desobedeceram aos padrões mais básicos, maltratando-se uns aos outros e adorando a deuses falsos (Jr.4:5,25). Além da idolatria, pecados abomináveis foram cometidos contra Deus: derramaram sangue inocente (2Cr.24:17-22); cometeram todo tipo de corrupção e injustiça social (Hc.1:2-4); não observaram o descanso sabático e ainda mataram muitos dos seus profetas (Mt.23:35).

Diante de tão grande apostasia, Deus faz uma indagação pesarosa ao povo: “Assim diz o Senhor: que injustiça acharam vossos pais em mim, para se afastarem de mim, indo após a vaidade e tornando-se levianos?”(Jr.2:5).

Todo crente enfrenta a mesma tentação de se esquecer da bondade de Deus e sua salvação, quando anda segundo a sua vontade, e nos prazeres pecaminosos do mundo. É fácil dizer: seguiremos ao Senhor Deus, mas é muito mais importante viver isto.

II. A OBSTINAÇÃO DE ZEDEQUIAS E SUA QUEDA

1. A teimosia de Zedequias

Zedequias, foi o último rei de Judá; era filho do rei Josias. Seus dois irmãos mais velhos - Joacaz e Jeoaquim -, e seu sobrinho Joaquim, filho de Jeoaquim, governaram antes dele. Quando Joaquim foi exilado na Babilônia, Nabucodonosor tornou Matanias rei de Judá (Jr.37:1), e mudou o nome dele para Zedequias (2Cr.36:10; Jr.37:1ss). Ele era da idade de vinte e cinco anos quando começou a reinar, e onze anos reinou em Jerusalém - de 597 a 586 a.C. (2Cr.36:11); fez o que era mau aos olhos do Senhor, seu Deus (Jr.52:2); não se humilhou perante o profeta Jeremias, que falava da parte do Senhor (2Cr.36:12; Jr.38:14-28). Também se rebelou contra o rei Nabucodonosor, que o tinha obrigado a jurar fidelidade em nome de Deus; mas endureceu a sua cerviz e tanto se obstinou no seu coração, que se não converteu ao SENHOR, Deus de Israel (2Cr.36:13).

Apesar das insistentes advertências e conselhos de Jeremias, o rei Zedequias e seus oficiais não quiseram ouvir as palavras do profeta; só queriam as bênçãos que poderiam ser concedidas pelas orações do profeta (Jr.37:2,3; 38:14-28); queriam uma religião superficial que não custasse coisa alguma. Deus não se agrada daqueles que vão a Ele buscando apenas bênçãos, em vez de procurarem ter um relacionamento de fidelidade e lealdade com Ele. Nós, seres humanos, não aceitaríamos esse tipo de relacionamento com outras pessoas; logo, não devemos esperar que Deus aceite isto de nós. Pense nisso!

2. Surdos aos avisos dos profetas

Deus preveniu os habitantes de Judá contra os pecados que praticavam. A nação se arrependia e Deus continuamente lhe demonstrava o seu favor; porém, ela o abandonava em seguida (2Cr.36:15,16). Assim narra o cronista:

“também todos os chefes dos sacerdotes e o povo aumentavam mais e mais as suas transgressões, segundo todas as abominações dos gentios. E contaminaram o templo que o Senhor tinha santificado em Jerusalém. O Senhor, Deus de seus pais, sempre de novo falou-lhes por meio dos seus mensageiros, porque teve compaixão do seu povo e da sua própria morada. Mas eles zombaram dos mensageiros de Deus, desprezaram as palavras dele e debocharam dos seus profetas, até que a ira do Senhor veio sobre o seu povo, e não houve mais remédio” (2Cr.36:14-16).

Por fim, a situação se mostraria irremediável. Deus resolveu levar a nação ao cativeiro, mas enviou o profeta Jeremias para advertir o povo e o rei Zedequias que saíssem da cidade e se rendessem aos babilônios. Assim exortou Jeremias:

“Assim diz o Senhor: Quem ficar nesta cidade morrerá à espada, de fome e de peste; mas aquele que sair e se render aos caldeus viverá; porque a vida lhe será por despojo, e viverá. Assim diz o Senhor: Esta cidade infalivelmente será entregue nas mãos do exército do rei da Babilônia, e este a tomará” (Jr.38:2,3).

Mas, o povo e nem o rei não quiseram ouvi-lo, e ainda colocaram o profeta numa cisterna de lama:

“Então as autoridades disseram ao rei: Este homem tem de ser morto, porque, dizendo essas palavras, desfalece as mãos dos homens de guerra que restam nesta cidade e as mãos de todo o povo. Este homem não procura o bem-estar do povo, e sim o mal. O rei Zedequias respondeu: Eis que ele está nas mãos de vocês, pois o rei nada pode fazer contra vocês. Então eles pegaram Jeremias e o lançaram na cisterna de Malquias, filho do rei, que ficava no pátio da guarda. Desceram Jeremias com cordas. Na cisterna não havia água, apenas lama; e Jeremias se atolou na lama” (Jr.38:4-6).

O resultado dessa obstinação do povo e do rei foi a destruição da cidade de Jerusalém, do Templo e o exilio (Jr.39:1). Está escrito em 2Cronicas 36:17-21:

“Por isso, o Senhor trouxe contra eles o rei dos caldeus, que matou os seus jovens à espada, na casa do santuário deles. Não teve piedade nem dos jovens nem das moças, nem dos adultos nem dos velhos; entregou todos nas mãos do rei dos caldeus. Todos os utensílios da Casa de Deus, grandes e pequenos, os tesouros da Casa do Senhor e os tesouros do rei e dos seus príncipes, tudo ele levou para a Babilônia. Os caldeus queimaram a Casa de Deus e derrubaram a muralha de Jerusalém. Queimaram todos os seus palácios, destruindo também todos os seus objetos de valor. Os que escaparam da espada, a esses ele levou para a Babilônia, onde se tornaram escravos dele e de seus filhos, até o tempo do reino da Pérsia. Isto aconteceu para que se cumprisse a palavra do Senhor, por boca de Jeremias, até que a terra desfrutasse dos seus sábados. Durante todos os dias da sua desolação a terra repousou, até que os setenta anos se cumpriram”.

Tomemos cuidado para não abrigar o pecado em nosso coração; pode chegar o dia em que não haja como aplicar o remédio, e o castigo de Deus venha substituir a sua misericórdia. O pecado muitas vezes repetido por alguém que nunca se arrepende é convite ao desastre. Pense nisso!

III. JERUSALÉM É CERCADA E LEVADA CATIVA

1. A destruição da Cidade Santa e do Templo

Embora o profeta Jeremias tenha advertido insistentemente o povo e o rei de que a cidade de Jerusalém e o Templo seriam destruídos, por causa dos pecados intermináveis da nação, eles rejeitaram a mensagem do Senhor. Porém, as profecias de Jeremias se cumpriam literalmente: Jerusalém e o Templo foram destruídos, o rei e os seus filhos foram mortos de forma cruel e impiedosa, e a maior parte do povo foi levada ao cativeiro babilônico. O Templo Sagrado, erigido há 380 anos, foi saqueado, destruído e queimado; a glória de Israel se foi. Diz assim o texto sagrado:

“E, no quinto mês, no décimo dia do mês (este era o décimo nono ano do rei Nabucodonosor, rei da Babilônia), veio Nebuzaradã, capitão da guarda, que assistia na presença do rei da Babilônia, a Jerusalém. E queimou a Casa do Senhor, e a casa do rei, e também a todas as casas de Jerusalém, e incendiou todas as casas dos grandes. E todo o exército dos caldeus que estavam com o capitão da guarda derribou todos os muros que rodeavam Jerusalém” (Jr.52:12-14).

Os israelitas confiavam no Templo do Senhor como base de sua fé, negando as boas obras, e logicamente pregando uma coisa e vivendo outra bem diferente; cometiam todo tipo de pecado durante a semana (Jr.7:5-9), depois, no sábado, vinham ao Templo, apresentava-se a Deus, e deste modo enganavam-se, crendo que estavam seguros mediante o amor que Deus lhes tinha. Acreditavam que o Senhor jamais permitiria que o Templo e a cidade de Jerusalém fossem destruídos. Ledo engano!

O profeta Jeremias estava muito triste ao ver o povo confiar na própria religião, a saber, o judaísmo, como base de proteção, mesmo sendo infiéis, idólatras, adúlteros e assassinos. O profeta assim os advertia: “Não vos fieis em palavras falsas, dizendo: Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é este“ (Jr.7:4).

Sob muitos aspectos, para os israelitas, o Templo e a cidade de Jerusalém tinham o mesmo significado: simbolizava a presença e a proteção do Senhor Deus entre o seu povo (cf. Êx.25:8; 29:43-46). Quando ele foi dedicado, Deus desceu do céu e o encheu da sua glória (2Cr.7:1,2; cf. Êx.40:34-38), e prometeu que poria o seu Nome ali (2Cr.6:20,33). Por isso, quando o povo de Deus queria orar ao Senhor, podia fazê-lo voltado em direção ao Templo (2Cr.6:24,26,29,32), e Deus o ouviria “desde o seu templo” (Sl.18:6).

Porém, o Templo simbolizava a presença de Deus somente enquanto o povo rejeitasse todos os demais deuses e obedecesse à lei de Deus. Miquéias, por exemplo, verberava contra os líderes do povo de Deus, por sua violência e materialismo, os quais ao mesmo tempo, sentiam-se seguros de que nenhum mal lhes sobreviria enquanto possuíssem o símbolo da presença de Deus entre eles: o Templo (Mq.3:9-12); profetizou que Deus os castigaria com a destruição de Jerusalém e do seu Templo.

Posteriormente, Jeremias repreendeu os idólatras de Judá, porque se consolavam mediante a constante repetição das palavras: “Templo do Senhor, Templo do Senhor, Templo do Senhor é este” (Jr.7:2-4,8-12). Por causa de sua conduta ímpia, Deus destruiria o símbolo da sua presença: o Templo (Jr.7:14,15). Deus até mesmo disse a Jeremias que não adiantava ele orar por Judá, porque Ele não o atenderia (Jr.7:16). A única esperança deles era endireitar os seus caminhos (Jr.7:5-7).

O próprio Jesus, assim como os profetas do Antigo Testamento, censurou o uso indevido do Templo. Seu primeiro grande ato público (João 2:13-17) e o seu último (Mt.21:12,13) foram expulsar do Templo aqueles que estavam pervertendo o seu verdadeiro propósito espiritual (ver Lc.19:45). Ele passou a predizer o dia em que o Templo seria completamente destruído (Mt.24:1,2; Mc.13:1,2; Lc.21:5,6).

Existem alguns paralelos entre a maneira como os judeus viam o Templo em Jerusalém e como muitos hoje veem suas igrejas:

-Os judeus não cultuavam a presença de Deus em sua vida cotidiana como faziam no Templo. Hoje, é possível frequentar belas e bem equipadas igrejas, mas não levar a presença de Deus conosco durante a semana.

-O edifício do Templo se tornou mais importante para os judeus do que a essência da fé. Hoje, ir à igreja e pertencer a um grupo pode tornar-se mais importante do que ter uma vida transformada para Deus.

-Os judeus viam apenas o Templo como santuário. Hoje, muitos cristãos não se veem como Templo do Espírito Santo e usam a filiação religiosa como um esconderijo, pensando que esta os protegerá dos males e dos problemas.

Portanto, o compromisso de Deus não é com símbolos, monumentos ou com ícones, mas com todos os que guardam a sua Palavra e obedecem aos seus mandamentos. O lugar onde adoramos não é tão importante para Deus quanto a nossa adoração a Ele. O edifício de uma Igreja pode ser bonito, mas se as pessoas que se reúnem ali não seguirem sinceramente a Deus, a Igreja será decadente. Apesar da beleza do Templo de Jerusalém, o povo de Judá tinha rejeitado em sua vida diária aquilo que afirmava em seus rituais de adoração; deste modo, o culto havia se tornado uma farsa.

2. A matança, o cativeiro, a peste e a pobreza

Jeremias exerceu o seu ministério até o fim; cumpriu à risca tudo o que Deus lhe mandou que fizesse. Sua profecia cumpriu-se literalmente: Jerusalém foi devastada, o Templo destruído e quase a totalidade do povo, que não tinha sido morto pela fome e a espada, foi levado cativo para a Babilônia.

A situação catastrófica presenciada pelo profeta causou-lhe tremendas dores, expressa através dos cinco poemas que compõem o livro das Lamentações de Jeremias. No capítulo 3, Jeremias identifica-se como um indivíduo que experimentou em sua própria vida todo o sofrimento que a nação tinha experimentado - “Eu sou homem que viu a aflição pela vara do seu furor” (Lm.3:1).

O profeta descreve, com riqueza de detalhes, as deploráveis cenas que presenciou. Jerusalém permaneceu sitiada por dois anos. A vida tornou-se tão difícil que alguns comeram os próprios filhos. Os corpos mortos eram deixados nas ruas, e ali apodreciam. As crianças morriam de sede e fome; ninguém poderia saciá-las. Não havia mais esperança. Até os sacerdotes perderam as esperanças. Veja apenas uma parte do que Jeremias presenciou:

“A língua do bebê que mama fica pegada, pela sede, ao céu da boca; as crianças pedem pão, mas não há quem as alimente. Os que se alimentavam de comidas finas desfalecem nas ruas; os que se criaram entre escarlate agora vivem entre montes de lixo. Porque a maldade da filha do meu povo é maior do que o pecado de Sodoma, que foi destruída num momento, sem intervenção humana. Os seus príncipes eram mais alvos do que a neve, mais brancos do que o leite; eram mais ruivos de corpo do que os corais e tinham a formosura da safira. Mas agora o aspecto deles é mais escuro do que a fuligem; não são reconhecidos nas ruas. A sua pele grudou nos ossos, secou-se como a madeira. Mais felizes foram as vítimas da espada do que as vítimas da fome; porque estas se definham atingidas mortalmente pela falta do produto dos campos. As mãos das mulheres que antes eram compassivas cozinharam os seus próprios filhos; estes lhes serviram de alimento quando a filha do meu povo foi destruída” (Lm.4:4-10).

Tudo isto aconteceu por causa do pecado que superou até mesmo os pecados de Sodoma. Sodoma, destruída pelo fogo e enxofre que caíram do céu, por causa da perversidade dos habitantes da cidade (Gn.18:20-19:29), tornou-se um símbolo do juízo de Deus. Contudo, o pecado de Jerusalém foi maior do que o pecado de Sodoma (Lm.4:6).

3. A esperança profetizada

Deus permitiu que o povo de Judá fosse levado ao cativeiro, mas deu-lhe uma esperança de que eles voltariam a ocupar novamente a terra prometida. O profeta Jeremias narrou o quanto Deus é misericordioso e o tamanho da sua fidelidade (Lm.3:21-23).  Diz assim o texto sagrado:

“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade”.

Jeremias quis que o seu povo soubesse que nem tudo estava perdido. Apesar da situação ser desastrosa, eles não deveriam perder a esperança. Razões: (a) A ira do Senhor é de curta duração, mas a sua misericórdia não tem fim (Lm.3:22). Deus não rejeitou Judá como o povo do Seu concerto, e Ele ainda tinha um propósito para ele; (b) O Senhor é bom e misericordioso com aqueles que nEle esperam com humildade e arrependimento (Lm.3:24-27).

Quando Ciro assumiu o poder do grande império Medo-Persa, tratou com respeito todos os seus súditos leais, inclusive os judeus. Em 538 a.C., ele fez uma grande proclamação, registrada no final de 2Crônicas:

 “Assim diz Ciro, rei da Pérsia: o Senhor, Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que está em Judá; quem entre vós é de todo o seu povo, que suba, e o senhor, seu Deus, seja com ele” (2Cr.36:23; Ed.1:2,3a). 

Cumpriu-se, desse modo, a predição feita pelo profeta Isaías há, aproximadamente, 160 anos antes acerca de Ciro, o “ungido” do Senhor (Is.44:28). Depois de setenta anos de cativeiro, o povo foi autorizado a retornar para sua terra prometida. O salmo 126 é um cântico de louvor a Deus porque fez retirar do cativeiro o seu povo.

Entretanto, a maioria dos judeus da dispersão preferiu permanecer em suas casas, especialmente os que moravam em Babilônia; mas, aqueles que tinham seus olhos voltados para o propósito eterno de Deus, viram no cativeiro um instrumento de correção. E o retorno à pátria era o sinal de que ainda tinham um papel redentor a desempenhar.

No cativeiro, os princípios e crenças do povo de Judá se consolidaram. O próprio fato de terem sido destituídos do Templo, do altar e dos sacrifícios gerou neles uma retomada aos princípios fundamentais da fé judaica. Por este motivo foram formadas no exílio escolas de teologia judaica (precursoras das sinagogas – lugar de reunião e adoração – Mt.4:23) e, portanto, quando enfim chegou o dia da restauração, não eram fracas as suas convicções, nem desordenado o seu sistema doutrinário, e possuíam uma austera crença monoteísta e um credo religioso distinto, não podendo efetuar domínio na sua mente as fascinações da idolatria.

O cativeiro revelou um remanescente fiel, preservado de modo sobrenatural por Deus, para que retornassem a Jerusalém. Esse remanescente fiel não foi absorvido no meio da terra do seu cativeiro, como havia sucedido a outros povos conquistados.

Certamente o tempo do exílio foi um período de grande atividade literária entre os judeus no sentido de coligir, preservar e editar antigos escritos. Por conseguinte, podemos atribuir ao povo judeu a preparação do caminho para a vinda do Cristianismo, uma vez que forneceu, por meio desta preservação literária, ao povo da Nova Aliança – a Igreja de Cristo -, sua mensagem, a saber, o Antigo Testamento.

Deus, às vezes, permite aflições sobre crentes rebeldes, para realizar uma obra benéfica e purificadora na vida deles. Crentes em tais situações devem confessar seus pecados, se humilhar e confiar no Senhor quanto ao seu perdão e restauração, pois “as misericórdias do Senhor não têm fim”. Assim como Jeremias mudou sua desolação para um estado de esperança, também o cristão deve desenvolver uma atitude de fé diante de suas dificuldades e enfrentamentos. O maior motivo da nossa esperança é a ressurreição de Cristo - “Cristo em vós, esperança da glória” (Cl.1:27b). A vinda de Jesus Cristo para levar o seu povo a morar com Ele no Céu, conforme prometido (João 14:1-3), é a mais sublime esperança do crente.

CONCLUSÃO

A passagem de levítico 26:27-45 é surpreendente; nela, é predito com detalhes o cativeiro e como o povo de Deus seria expulso de sua terra por desobedecer-lhe. Um dos mandamentos ignorados era que, a cada sete anos, a terra cultivada deveria descansar por um ano (cf. Êx.23:10,11). Os setenta anos de cativeiro permitiram que a terra descansasse, compensando todos os anos em que os israelitas não observaram essa lei. Sabemos que Deus cumpre as suas promessas, não apenas as de bençãos, também as de juízo.