JÓ E A REALIDADE DE SATANÁS

 


Texto Base: Jó 1:6-12; 2:4,5
“E vindo um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles” (Jó 1:6).

Jó 1:

6.E vindo um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles.

7.Então, o SENHOR disse a Satanás: De onde vens? E Satanás respondeu ao SENHOR e disse: De rodear a terra e passear por ela.

8.E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem sincero, e reto, e temente a Deus, e desviando-se do mal.

9.Então, respondeu Satanás ao SENHOR e disse: Porventura, teme Jó a Deus debalde?

10.Porventura, não o cercaste tu de bens a ele, e a sua casa, e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste, e o seu gado está aumentado na terra.

11Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema de ti na tua face!

12.E disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto tem está na tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do SENHOR.

Jó 2:

4.Então, Satanás respondeu ao SENHOR e disse: Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida.

5.Estende, porém, a tua mão, e toca-lhe nos ossos e na carne, e verás se não blasfema de ti na tua face!

INTRODUÇÃO

Trataremos nesta Aula de “Jó e a realidade de Satanás”; abordaremos algumas questões relativas à existência e à realidade de Satanás a partir do contexto de Jó. É bom ressaltar que Satanás não é um mito, ou uma figura de ficção; ele é um ser real, um anjo caído, poderoso, que se rebelou contra Deus, e cuja missão principal é acusar os santos diante do Senhor. O Livro de Jó revela com clareza a realidade de Satanás. Ele tem agido de forma deletéria no mundo, mas ele não é maior que Deus, nem muito menos exerce ação autônoma; suas ações estão submetidas à soberania de Deus. No começo do relato da história de Jó, quando os anjos (tanto os caídos quanto os santos anjos) compareceram perante Deus, perguntou o Senhor a Satanás: “Donde vens? Satanás respondeu ao Senhor e disse: De rodear a terra e passear por ela” (Jó 1:7). À medida que acompanhamos o desenrolar do diálogo entre Deus e Satanás, descobrimos que, apesar de o diabo ter poder para investir contra a vida de seres humanos, isso não quer dizer, necessariamente, que ele possa fazê-lo quando bem entender. Satanás precisa da permissão de Deus para provocar calamidades na vida de um ser humano.

I. O LIVRO DE JÓ E A NATUREZA DE SATANÁS

A Bíblia diz que Satanás é o maioral dos demônios (Mt.12:24; 25:41). No princípio, Deus criou o querubim ungido, perfeito em sabedoria e formosura, o qual era o selo da simetria (Ez.28:12-15). Ele se rebelou contra Deus e foi expulso do céu (Is.14:12-15). Com sua queda, saíram com ele os anjos que aderiram à rebelião, e uma parte deles continua em prisão (2Pd.2:4; Jd.6). Apesar da pura realidade bíblica sobre os demônios não se deve fazer apologia dos seus hábitos. Há segmentos chamados evangélicos que falam mais no Diabo do que anunciam Jesus; pregam mais sobre exorcismo do que arrependimento; vivem caçando demônios, neurotizados pelo chamado movimento de batalha espiritual. Isso não deve acontecer numa Igreja genuinamente cristã.

1. Um ser espiritual

Satanás é uma criatura espiritual e invisível aos seres humanos, e encontra-se na mesma categoria dos anjos, representada no texto pela expressão “os filhos de Deus” (Jó 1:6). Ele é um ser sobrenatural e, como os humanos, possui natureza racional. Ele é "o maligno" (Mt.13:19), que se opõe a Deus e à sua criação. Sendo ele nosso inimigo, quer nos derrubar(1Pd.5:8, João 8:44). Sendo ele o pai da mentira, lança dúvidas a respeito da Palavra de Deus. A Bíblia diz que devemos resisti-lo e assim ele fugirá de nós (Tg.4:7).

2. Um ser criado

Satanás não é auto-existente, ele é uma criatura como os seres humanos são. Ao contrário de Deus, que criou todas as coisas, o anjo que se tornou Satanás teve uma origem; suas ações são limitadas por Deus. Ele pode fazer coisas extraordinárias dentro do orbe da malignidade, porém, dentro do espectro de tolerância dada por Deus (Jó 1:12; 2:7). Apesar de ser maligno, nem sempre foi assim; por isso, ele é considerado um anjo caído. A Bíblia fala acerca dos anjos que pecaram contra o Criador e não guardaram a sua dignidade (2Pd.2:4; Jd.6; Jó 4:18-21) – “Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o Juízo” (2Pd.2:4).

Deus criou o querubim ungido, um anjo perfeito em sabedoria e formosura (Ez.28:12-15). Ele havia sido estabelecido para glorificar a Deus e “chefiar” essa glorificação. Mas o querubim ungido quis situar-se acima do trono do Altíssimo, quis ser glorificado e não glorificar a seu Deus e Criador, o que representava um desvio, uma distorção do fim instituído pelo Senhor e, por isso, pecou. Por causa de sua rebelião, foi expulso do Céu (Is.14:12-15), e saíram com ele milhares de anjos que aderiram à rebelião, e uma parte deles continua em prisão (2Pd.2:4; Jd.6).

3. Um ser dotado de personalidade

Além de ser uma criatura espiritual, Satanás é dotado de personalidade; ele é uma pessoa, que tem consciência, entendimento e vontade.

·         Ele é dotado de consciência. No episódio da criação, é dito que os anjos cantavam e rejubilavam, ou seja, demonstraram ter noção do que estava a acontecer e louvavam a Deus. Isto só é possível para seres que têm consciência de si mesmos e consciência de quem é Deus a ponto de reconhecerem Sua soberania e Sua dignidade para ser adorado. No Livro de Jó vemos Satanás, de forma consciente, assumindo atributos de um ser pessoal. Ele fala e possui capacidade argumentativa (Jó 1:9-11). Essa mesma característica aparece de forma mais explicita na tentação de Cristo (Mt.4:1-11; Lc.4:1-13).

·         Ele é dotado de entendimento. Satanás sabe quem ele é, o que faz e o que está acontecendo. No livro de Jó, além de expressar-se verbalmente, Satanás demonstrou possuir entendimento. Ele sabe o que se passa na Terra e como se comportam as pessoas. Ele conhecia a vida de Jó; isso faz dele um ser perspicaz. Ele usou de seu conhecimento e perspicácia para atacar Jó.

·         Ele é dotado de vontade. Assim como os homens, os anjos foram criados com o livre-arbítrio, ou seja, com o poder de escolher entre servir a Deus ou não. Tanto é assim que o “querubim ungido” escolheu o mal, quis ocupar o lugar de Deus e, por isso, pecou, tendo sido achado iniquidade nele, a ponto de ter perdido toda a glória que possuía nesse lugar de proeminência diante do Senhor (Is.14:12-16; Ez.28:12-19). Isto só foi possível porque os anjos são dotados de livre-arbítrio. Entretanto, para os anjos, este livre-arbítrio só pode ser exercido uma única vez, visto que os anjos estão na dimensão celestial, onde não existe o tempo e, portanto, o arrependimento se torna impossível. Tendo feito a sua escolha, quando do pecado do “querubim ungido”, os seres angelicais a fizeram para sempre e, por isso, podemos, hoje, falar em “santos anjos” (Mt.25:31; Mc.8:38; Lc.9:26; At.10:22; Ap.14:10) ou “anjos de Deus” (Jó 4:18; Sl.91:11; Sl.148:2; Mt.4:6; 13:41; 16:27; 18:10; 24:31; Mc.13:27; Lc.4:10; Hb.1:7; Ap.3:5), como também em “anjos do diabo” (Mt.25:41; Ap.12:7,9), também chamados de “anjos que não guardaram o seu principado” (Jd.6).

II. O LIVRO DE JÓ E AS OBRAS DE SATANÁS

Satanás, originalmente um anjo de Deus, tornou-se corrupto pelo seu orgulho; ele tem sido mau desde sua rebelião contra Deus (1João 3:8). Satanás considera Deus como inimigo. Ele tenta atrapalhar a obra de Deus na vida das pessoas, mas está limitado pelo poder de Deus, e faz apenas o que lhe é permitido (Lc.22:31,32; 1Tm.1:19,20; 2Tm.2:23-26). Satanás é chamado de inimigo porque busca ativamente por pessoas a quem possa tentar (1Pd.5:8,9), e porque o seu desejo é que as pessoas odeiem a Deus. Ele faz isso através da mentira e da decepção (Gn.3:1-6). Jó, um homem correto e inocente, que fora grandemente abençoado, era o alvo exato para Satanás.

Qualquer pessoa comprometida com Deus deve esperar os ataques do inimigo. Satanás, que odeia a Deus, também odeia as pessoas. Ele causa dor e sofrimento; ele acusa as pessoas; ele é o grande tentador.

Todavia, o poder de Satanás é limitado e o seu agir está sob a autorização de Deus. Ele só age se Deus permitir. Satanás teve que pedir permissão a Deus para tirar a riqueza, os filhos e a saúde de Jó. Satanás estava limitado ao que Deus permitia. Ele é limitado quanto ao tempo, ao poder e à área de atuação. Ele só pode ir até onde Deus lhe permitir que ele faça. Deus assim lhe ordenou:

“Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema de ti na tua face! E disse o Senhor a Satanás: Eis que tudo quanto tem está na tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do Senhor” (Jó 1:11,12).

1. Dor e sofrimento

Satanás é um anjo poderoso, e ele pode causar dor e sofrimento nas pessoas. Seu desejo é ver as pessoas sofrerem. Sua missão é causar dor. Satanás impôs ao patriarca Jó um sofrimento, até então, sem precedentes, pois ninguém sofreu como ele no Antigo Testamento. Ele colocou uma enfermidade terrivelmente dolorosa em Jó. Tumores malignos cobriram todo o seu corpo. O sofrimento de Jó pode ser analisado em dois aspectos principais:

-Primeiro, o sofrimento físico. Ele foi coberto de tumores malignos da planta dos pés ao alto da cabeça (Jó 2:7,8). A sua dor era imensa. Seus amigos ficaram sentados com ele no chão sete dias e sete noites; e nenhum deles lhe dizia nada, pois viram que sua dor era muito grande (Jó 2:13). Ele não conseguia dormir por causa da dor lancinante. Jó declarou: “Não tenho tranquilidade, nem sossego, nem descanso; somente perturbação” (Jó 3:26). Ele não conseguia parar de chorar. Chegou a afirmar: “Pois em lugar de alimento me vêm suspiros, e os meus gemidos se derramam como  água” (Jó 3:24). Ele não tinha nenhum alívio do seu sofrimento. Não tinha descanso nem sossego. Suas noites eram longas e cheias de aflição. Vejamos a sua queixa:

assim me deram meses de  desengano, e destinaram-me noites de aflição. Quando me deito, digo: Quando me levantarei? Mas a noite é longa, e canso de me revolver na cama até o alvorecer” (Jó 7:3,4).

Sua pele ficou cheia de feridas e pus. Disse Jó: “Meu corpo está coberto de vermes e de crostas de sujeira; a minha pele se resseca, e as feridas voltam a se abrir” (Jó 7:5). Suas dores o apavoravam (Jó 9:27,28). Seu corpo apodrecia como uma roupa comida de traça (Jó 13:28), encarquilhado e magérrimo (Jó 16:8). Seus ossos se deslocaram. Sua dor não tinha pausa (Jó 30:17). Sua pele enegreceu e começou a descamar. Seus ossos queimavam de febre (Jó 30:30).

-Segundo, o sofrimento emocional. Ele ficou angustiado e amargurado (Jó 7:11). À noite, seus sonhos e visões só lhe traziam mais terror (Jó 7:14). Ele chegou a ficar cansado de viver (Jó 10:1). Seu rosto afogueou de tanto chorar (Jó 16:16). Ele estava cercado de pessoas que o provocavam (Jó 17:2). Sua desventura foi proclamada em todo o mundo (Jó 17:6). As pessoas cuspiam em seu rosto (Jó 17:6; 30:10). Seus sonhos e esperanças fracassaram (Jó 17:11). Os irmãos e conhecidos fugiram dele na sua dor (Jó 19:13). Os parentes o desampararam (Jó 19:14). As pessoas que receberam sua ajuda no passado o tratavam com desprezo (Jó 19:15). O mau hálito e o mau cheiro que exalavam do seu corpo expulsaram a esposa
e os irmãos de perto dele (Jó 19:17). Até as crianças o desprezavam, e dele zombavam (Jó 19:18). Todos os seus amigos íntimos o abandonaram (Jó 37:2). Sua honra e felicidade foram arrancadas (Jó 30:15). Aconteceu o contrário de tudo de bom que ele desejou (Jó 30:26,27).

Jó era um modelo de confiança e obediência a Deus, mesmo assim Deus permitiu que Satanás o atacasse de forma particular e cruel. Embora Deus nos ame, crer nEle e obedecê-lo não nos isenta de calamidades na vida.

Reveses, tragédias e tristezas atingem tantos os não crentes como os crentes. Contudo, Deus espera que, durante nossas provas e sofrimentos, expressemos nossa fé ao mundo. Como você reage aos problemas? Você pergunta a Deus: “Por que eu?”. Ou diz: “Usa-me, Senhor!”.

Devemos aprender a reconhecer, mas não temer, os ataques de satanás, pois ele não pode exceder os limites estabelecidos por Deus. Embora não possamos controlar os ataques do Diabo, podemos sempre escolher como reagir a eles.

2. Acusar

Satanás não somente causa dores e sofrimentos nas pessoas, ele também faz acusações destruidoras; aliás, acusar faz parte de sua natureza maligna. Antes de causar dores e sofrimentos em Jó, com a devida permissão de Deus, ele fez severas acusações. O Diabo o acusou de praticar uma religiosidade motivada por interesses. Satanás é um ser rebelde e maligno. Por isso, vê tudo de forma distorcida. Olha para Deus e para os homens projetando sua maldade. Satanás suspeitou de Deus e também de Jó. Levantou dúvidas a respeito de Deus e também de Jó. Lançou suas setas venenosas contra Deus e também contra Jó. Veja o que ele disse a respeito de Jó:

“Então, respondeu Satanás ao Senhor e disse: Porventura, teme Jó a Deus debalde?
Porventura, não o cercaste tu de bens a ele, e a sua casa, e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste, e o seu gado está aumentado na terra. Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema de ti na tua face!” (Jó 1:9-11).

Segundo Hernandes Dias Lopes, Satanás está aqui insinuando duas coisas:

-Primeiro, que Deus precisa subornar as pessoas com bênçãos para receber delas adoração. Satanás está dizendo que Deus não é honesto. Que Deus precisa comprar o louvor dos homens oferecendo-lhes bênçãos especiais. Satanás se levanta contra o caráter de Deus, acusa-o e questiona suas motivações.

-Segundo, que Jó só serve a Deus por interesse. Satanás está insinuando que Jó também não é honesto. Está afirmando que a devoção de Jó não passava de uma barganha com Deus. Satanás acusou Jó de ser um utilitarista que se aproximava de Deus não por quem é Deus, mas por aquilo que Deus dava a ele. Na verdade, Satanás estava defendendo a tese de que todo mundo serve a Deus por algum interesse egoísta.

3. Tentar

Uma das características principais de Satanás é incitar e tentar as pessoas para o mal. Isto faz parte de sua natureza maligna (cf. 1Cr.21:1) – “Então, Satanás se levantou contra Israel e incitou Davi a numerar a Israel”.

Satanás defendia que a fidelidade de Jó a Deus era devido à sua riqueza. Ele queria mostrar que o fundamento da devoção de Jó era as dádivas divinas. Para provar isso ele utilizou do método preferido: a tentação. Ele arregimentou os caldeus e os sabeus para surrupiar todos os bens de Jó, saqueá-los e destruí-los. O relato bíblico é comovente (cf. Jó 1:12-17):

“Sucedeu um dia, em que seus filhos e suas filhas comiam e bebiam vinho na casa do irmão primogênito, que veio um mensageiro a Jó e lhe disse: Os bois lavravam, e as jumentas pasciam junto a eles; de repente, deram sobre eles os sabeus, e os levaram, e mataram aos servos a fio de espada; só eu escapei, para trazer-te a nova. Falava este ainda quando veio outro e disse: Dividiram-se os caldeus em três bandos, deram sobre os camelos, os levaram e mataram aos servos a fio de espada; só eu escapei, para trazer-te a nova”.

Como Jó reagiu diante dessa forte tentação de Satanás? O homem mais rico do mundo de sua época foi à falência. O grande empresário rural perdeu tudo e foi à bancarrota. Seu império econômico entrou em colapso.

Conforme o argumento de rev. Hernandes Dias Lopes, as notícias chegaram a Jó como uma avalanche, informando-lhe que seus bens estavam sendo dissipados. As coisas aconteciam com uma celeridade incomum. Não dava tempo sequer para respirar. Jó não conseguia elaborar um plano para estancar essa hemorragia que sangrava sua economia. Não tinha tempo para cercar o fogo nem mesmo para resistir ao ataque fulminante dos caldeus e sabeus.

Jó, o homem mais rico do Oriente, estava quebrado. Sua fortuna, como um castelo de areia, ruiu. Seus rebanhos estavam nas mãos de ladrões impiedosos. Seus campos foram lambidos pelo fogo. Nada sobrou de toda a riqueza que ostentava. Tudo estava perdido!

Diante dessa forte tentação/provação, será que Jó ergueria seus punhos contra Deus? Será que da boca de Jó sairiam torrentes de blasfêmias? Será que a fidelidade de Jó estava fundamentada apenas nas benesses recebidas das mãos divinas? Será que a crença de Jó em Deus era apenas uma barganha, um negócio lucrativo, uma troca de favores?

Qual foi a atitude desse patriarca ao perder todos os seus bens? Muitos indivíduos, quando são atingidos pelos terremotos financeiros, desesperam-se. Outros, insurgem-se contra Deus. Ainda outros, cometem suicídio e dão cabo da própria vida. O que fez Jó? No exato momento que sofreu o golpe, o patriarca prostrou-se não para blasfemar contra Deus, mas para adorá-lo. Longe de atribuir a Deus qualquer culpa ou revoltar-se contra o altíssimo, afirmou:

“Eu sai nu do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá” (Jó 1:21).

Assim, Jó estava dizendo que a razão de sua vida não tinha como fundamento os bens que granjeara nem a riqueza que ostentava. Jó tinha plena consciência de que não havia trazido nada para este mundo nem levaria nada dele. Jó sabia que os bens são dádivas de Deus, que riqueza e glória vêm de Deus, mas que a vida de um homem não consiste na abundância de bens que ele possui. Jó definitivamente triunfou sobre a acusação de Satanás. O relato bíblico é enfático:

“Em tudo isso Jó não pecou, nem culpou a Deus coisa alguma” (Jó 1:22).

E nós, se estivéssemos diante de uma tentação/provação como esta, como reagiríamos? Pense nisso!

III. O LIVRO DE JÓ E O OCASO DE SATANÁS

1. Queda e ruína de Satanás

Satanás subestimou a fé e fidelidade de Jó a Deus. Apesar do sofrimento impiedoso, das dores infindas, da perda do seu patrimônio, dos seus filhos e de sua saúde física, ele provou de forma eloquente que sua devoção a Deus não estava baseada no que recebia de Deus, mas no caráter do Senhor. Como os três amigos de Daniel na Babilônia, Jó não servia a Deus por aquilo que Ele lhe dava, mas por quem Deus é.

A vitória de Jó foi uma tremenda derrota para Satanás. Ele não conseguiu o seu intento, que era fazer com que Jó blasfemasse o nome de Deus. Veja que a partir do capitulo 3 não é mais mencionado o nome do acusador; ele foi derrotado por um homem que se comprometeu no seu coração ser fiel a Deus, a despeito das circunstâncias adversas.

Deus pode nos livrar do mal. Deus pode nos proteger das setas do inimigo. Deus pode nos tirar da fornalha. Deus pode nos arrancar das entranhas do mar. Deus pode nos poupar dos terremotos financeiros, das enfermidades, dos ataques implacáveis dos inimigos; mas, se Ele, em sua sábia providência, quiser nos entregar para sofrermos o golpe da dor, das perdas e da morte, mesmo assim devemos ser fiéis a Ele.

Nesse embate, Jó saiu vitorioso e o nome de Deus foi glorificado. Todavia, essa derrota de Satanás foi parcial, pois ainda continua causando dores, sofrimentos, e perpetrando acusações deletérias e tentando o povo de Deus. Uma coisa é certa, e ele sabe disso, a sua derrocada final já está decretada (Ap.20:1-3,10).

“E vi descer do céu um anjo que tinha a chave do abismo e uma grande cadeia na sua mão. Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o diabo e Satanás, e amarrou-o por mil anos”.

“E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde está a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre”.

Na verdade, o ocaso final de Satanás teve início com a morte, ressurreição e ascensão de Jesus. A partir daí, as acusações do Diabo contra nós caíram por terra, porque quem nos justifica diante de Deus é o próprio Cristo (Rm.5:1; 8:33). No Apocalipse, vemos que Miguel e seus anjos vencem o dragão e seus demônios (Ap.12:7-9). O mérito da vitória, porém, não cabe ao arcanjo, pois este sempre atuou em nome do Senhor (Jd.9). Mais adiante, o Diabo é amarrado por mil anos, para, finalmente, ser lançado no lago de fogo (Ap.20:3,10). Diante das arremetidas do adversário, sejamos valentes e confiantes na pronta intervenção divina, pois temos, nesta luta, uma gloriosa promessa (Rm.16:20).

“E o Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco. Amém!”.

2. Jó e o testemunho de Deus

Satanás tirou tudo de Jó: seus bens, seus filhos, sua saúde e, até mesmo o apoio de sua mulher. O homem mais rico do mundo tornou-se o mais pobre entre os pobres. O homem mais honrado tornou-se o mais desonrado entre os aflitos. O homem mais cercado de respeito e admiração se deteve na cinza, coberto de chagas, sentindo dores atrozes. Apesar de todo esse infortúnio, sob a mais densa tormenta, no epicentro da crise, Jó manteve sua fidelidade a Deus. Mesmo coberto de desventuras, mesmo surrado pelo chicote da dor, mesmo com o choro perene, mesmo perdendo todas as conexões da terra, Jó não perdeu seu amor a Deus nem sua esperança no Redentor. Do mais profundo dos vales, ele gritou: “Eu sei que o meu Redentor vive” (Jó 19:25). Essa fidelidade inexorável de Jó foi correspondida pelo seu Deus, que esteve sempre com os seus olhos fitos nele observando o seu comportamento e testemunho, porque “os olhos do Senhor estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua misericórdia (Salmos 33:18). O próprio Deus testemunhou que Jó era o homem que Ele sempre disse que era: justo, reto e temente a Deus:

“Tomai, pois, sete bezerros e sete carneiros, e ide ao meu servo Jó, e oferecei holocaustos por vós, e o meu servo Jó orará por vós; porque deveras a ele aceitarei, para que eu vos não trate conforme a vossa loucura; porque vós não falastes de mim o que era reto como o meu servo Jó” (Jó 42:8).

Por sua fidelidade, Deus deu a Jó felicidade plena. O final de Jó foi apoteótico:

 “E, assim, abençoou o Senhor o último estado de Jó, mais do que o primeiro; porque teve catorze mil ovelhas, e seis mil camelos, e mil juntas de bois, e mil jumentas.
Também teve sete filhos e três filhas” (Jó 42:12,13).

“E, depois disto, viveu Jó cento e quarenta anos; e viu a seus filhos e aos filhos de seus filhos, até à quarta geração. Então, morreu Jó, velho e farto de dias” (Jó 42:16,17).

CONCLUSÃO

Apesar das intempéries perpetradas por Satanás contra Jó, ele manteve a integridade básica do seu caráter. Ele preencheu todos os requisitos dos seus dias de um homem exemplar. O próprio Deus testemunhou do seu caráter e, no final, o retribuiu por isso. A nós, povo de Deus da Nova Aliança, há uma promessa inabalável a todos aqueles que resistirem a Satanás em suas investidas e forem fieis a Deus: “E eis que cedo venho, e o meu galardão está comigo para dar a cada um segundo a sua obra” (Ap.22:12). A promessa ainda ecoa como um forte exortação: “Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados...Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap.2:10).



QUEM ERA JÓ

 

Texto Base: Jó 1:1-5
“Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e este era homem sincero, reto e temente a Deus; e desviava-se do mal” (Jó 1:1).

Jó 1:

1.Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e este era homem sincero, reto e temente a Deus; e desviava-se do mal.

2.E nasceram-lhe sete filhos e três filhas.

3.E era o seu gado sete mil ovelhas, e três mil camelos, e quinhentas juntas de bois, e quinhentas jumentas; era também muitíssima a gente ao seu serviço, de maneira que este homem era maior do que todos os do Oriente.

4.E iam seus filhos e faziam banquetes em casa de cada um no seu dia; e enviavam e convidaram as suas três irmãs a comerem e beberem com eles

5.Sucedia, pois, que, tendo decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó, e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; porque dizia Jó: Porventura, pecaram meus filhos e blasfemaram de Deus no seu coração. Assim o fazia Jó continuamente.

INTRODUÇÃO

Nesta Aula trataremos um pouco a respeito do caráter de Jó. Quem foi esse homem? O que podemos aprender com ele? Qual é o seu legado para a nossa geração? O Livro de Jó inicia-se com a apresentação do patriarca, desde seu caráter até seu patrimônio e família. Ele é apresentado como um homem de grandes virtudes e qualidades espirituais que sobrepujavam, e muito, a prosperidade material que possuía. Ele foi um homem que não apenas possuía bens materiais e uma família sólida, mas mantinha profunda comunhão com Deus. Devemos observar o seu exemplo e tentar sermos vistos por Deus como alguém que seja sincero, reto, temente a Deus e que se desvia do mal.

I. UM HOMEM DE CARÁTER IRRETOCÁVEL

“O caráter define o que uma pessoa é de verdade; ela é vista a partir dos valores que governam a sua vida interior. O “mau-caráter” define uma pessoa que não merece confiança, que é desonesta e que, portanto, não possui valores nobres”.

Quanto ao patriarca Jó, o próprio Deus deu testemunho a Satanás do caráter dele (Jó 1:8). O importante na vida do ser humano não é o que os outros dizem dele, e sim o que o Senhor fala a seu res­peito. Os homens podem errar. Vejamos o que o Onipotente disse de alguns de seus servos: Abraão, "meu amigo" (Is.41.8); Gideão, "varão valoroso" (Jz.6:12); Davi, "homem conforme o meu coração" (At.13:22); Daniel, "homem mui dese­jado" (Dn.10:11); Paulo, "vaso es­colhido" (At.9:15); etc. Quanto Jó, o Livro o descreve assim:

“Havia um homem na terra de Uz, e seu nome era Jó. Ele era um homem íntegro e correto, que temia a Deus e se desviava do mal” (Jó 1:1).

1. Íntegro (sincero) (Jó 1:1)

A primeira informação que temos acerca do caráter de Jó é que ele era um homem íntegro. Isso fala de seu caráter moral. Era um homem verdadeiro intimamente. Não havia duplicidade nem hipocrisia em Jó. Lamentavelmente há muitas pessoas que ostentam uma santidade que não possuem. Há muitos líderes que pregam sobre integridade, mas vivem de forma vergonhosa. São anjos em público e demônios na vida privada. Pregam uma coisa e vivem outra. São verdadeiros atores. Desempenham um papel muito diferente de sua vida. Alguém disse “que o homem não é aquilo que ele fala, mas aquilo que ele faz”. Nossas obras precisam ser o avalista de nossas palavras.

Jó foi íntegro na riqueza e permaneceu íntegro na pobreza. Foi íntegro quando estava honrado e permaneceu íntegro quando estava no pó e na cinza. O caráter vem antes da grandeza. Jó foi íntegro nos dias de celebração e no vale mais escuro da dor e provação. Passou pelo teste da prosperidade e pelo teste da adversidade.

2. Reto (Jó 1:1)

Também, o Livro diz que Jó era um homem reto. A retidão é consequência da integridade - integridade é aquilo que você é quando está sozinho; retidão é aquilo que você é quando está em público. Você é exatamente aquilo que é em secreto. Por isso, moralidade pública sem piedade secreta é como um corpo sem alma. Segundo Hernandes Dias Lopes, a retidão tem a ver com atos externos, enquanto a integridade, com valores internos. A verdade no íntimo conduz a uma prática pública de justiça. Porque Jó era um homem íntegro que andava com Deus, demonstrava sua retidão com suas obras. O próprio Jó dá o seu testemunho: “Eu era os olhos do cego e os pés do aleijado. Era pai dos necessitados e examinava com dedicação a causa dos desconhecidos (Jó 29:15,16).

3. Temente a Deus e desviava-se do mal (Jó 1:1)

Enfim, Jó demonstrava um sólido caráter piedoso:

-Primeiro, ele tinha uma devoção positiva - "Ele era temente a Deus". Aqui está o segredo da integridade de Jó. Ninguém pode ter uma vida interior santa sem o temor de Deus. Os santos temem a Deus porque ele perdoa; os pecadores porque ele pune. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; é grande freio contra o mal; é o fiel da balança. Aqueles que temem a Deus não temem os homens. Aqueles que temem a Deus fogem do pecado. Aqueles que temem a Deus deleitam-se nele com santa reverência. Aqueles que temem a Deus procuram agradá-lo não por causa do medo da punição, mas pelo prazer da comunhão.

-Segundo, Jó tinha uma devoção firme - "Ele se desviava do mal". Jó decisivamente se opôs ao pecado. Ele não apenas tinha o temor de Deus, mas também odiava o pecado, fugia do pecado, não transigia com o pecado. Não é suficiente apenas não pecar, devemos odiar o pecado em todas as suas formas. Devemos fugir até da aparência do mal.

II. UM HOMEM SÁBIO E PRÓSPERO

É possível ser próspero e, ao mesmo tempo, ter um caráter íntegro e piedoso? Esta pergunta faz sentido porque não é pouco comum correlacionar o defeito de caráter de uma pessoa com o advento do seu sucesso. O leitor da Bíblia Sagrada sabe do cuidado que as Escrituras apontam para a relação humana com o dinheiro. Sim, a Palavra de Deus diz que o “amor ao dinheiro é a raiz de toda espécie de males” (1Tm.6:10). Isso ocorre por causa do “apego”, da “ambição” que o homem desperta diante do dinheiro ou de algum outro bem material. Essa disposição pode aniquilar a nossa integridade e piedade. Que o exemplo de Jó fale aos nossos corações.

1. Um conselheiro sábio

Pelo texto sagrado percebe-se que Jó tinha um lugar de honra entre os seus companheiros como sábio conselheiro (Jó 29:19-21). Quando as pessoas precisavam de conselho, Jó era capaz de dá-lo. Agora que isso havia cessado, ele se sentia grandemente empobrecido.

19.A minha raiz se estendia junto às águas, e o orvalho fazia assento sobre os meus ramos;

20.a minha honra se renovava em mim, e o meu arco se reforçava na minha mão.

21.Ouvindo-me, esperavam e em silêncio atendiam ao meu conselho.

22.Acabada a minha palavra, não replicavam, e minhas razões destilavam sobre eles;

O texto indica o respeito que era dedicado a Jó e também pela sabedoria que saía da sua boca. A Bíblia afirma que Jó era “maior do que todos os do Oriente” (Jó 1:3); “maior”, aqui, não deve ser entendido apenas como uma referência a bens materiais, mas também à sua sabedoria. Suas palavras caiam sobre as pessoas como a chuva, suavemente e com benevolência (Jó 29:23). Aqueles que ouviam seus sábios conselhos, bebiam suas palavras como o solo ressecado absorve a chuva tardia, que caía no tempo apropriado e determinava a produtividade das colheitas.

Estudiosos destacam que Jó era mais importante em sabedoria, riqueza e piedade do que qualquer outra pessoa daquela região, e ressaltam o reconhecimento da sabedoria de Jó conforme se destacava a sabedoria dos orientais expressa em provérbios, canções e histórias. Neste sentido, Jó era o líder (Jó 29:25) entre seus companheiros; ele era líder de pessoas e apontava o caminho que eles deviam seguir. Ele era como um rei ou comandante de tropas (Jó 29:25). Ao mesmo tempo ele era aquele que consolava os que pranteavam (Jó 29:25). Como bem diz o pr. José Gonçalves, “há pessoas ricas que nem são sábias nem tampouco prósperas; possuem conhecimento, mas não entendimento; riquezas, mas não prosperidade. Jó distingue-se nesse aspecto. Ele foi um sábio conselheiro, rico e próspero”.

2. Um homem próspero

O texto sagrado afirma que Jó era o homem mais rico de sua geração no Oriente; era o maior empresário rural de seu tempo. Toda a sua fortuna é descrita detalhadamente:

Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas. Tinha também muitos servos que trabalhavam para ele, de modo que era o homem mais rico de todos os do Oriente” (Jó 1:3).

A vida de Jó refuta a ideia de que pessoas ricas não podem ser piedosas. A riqueza não é um pecado, nem a pobreza é uma virtude. A riqueza quando honestamente adquirida é uma bênção. É Deus quem fortalece as nossas mãos para adquirirmos riquezas. Riquezas e glórias vêm do próprio Deus.

A riqueza pode ser uma bênção ou uma maldição

a) É uma bênção quando o rico não considera seus bens apenas como uma propriedade particular para ser usufruída. Quando o rico pensa assim, ele se vê como mordomo de Deus, administrando o alheio, otimizando os recursos que gerencia para abençoar outras pessoas. Jó tinha plena convicção de que Deus havia cercado sua vida e sua família com uma muralha de proteção. Ele tinha certeza de que seus bens haviam se multiplicado na terra não apenas por causa de sua experiência administrativa, mas, sobretudo, porque Deus havia abençoado a obra de suas mãos. Por isso, Jó era um homem generoso. Sua devoção a Deus levou-o a ser um homem de coração aberto, casa aberta e bolso aberto para ajudar os necessitados.

b) É uma maldição quando ela é adquirida pelo expediente da opressão, do suborno, da corrupção e da violência. Construir impérios econômicos, arrebatando o direito do inocente, saqueando a casa do pobre, oprimindo o órfão e a viúva, é lavrar para si mesmo uma sentença de morte, é colocar laço para os próprios pés e cavar a própria sepultura. Deus é o reto juiz, e ele é o grande defensor dos indefesos e inocentes. Aqueles que maquinam o mal para arrebatar os bens dos pobres e que maquinam de noite projetos iníquos e logo ao amanhecer já os colocam em prática porque têm o poder nas mãos, mesmo acumulando bens, riquezas e mais riquezas, não usufruirão no sentido pleno desses haveres. Comerão, mas não se fartarão; vestirão, mas não se aquecerão; buscarão aventuras, as mais extravagantes, e não encontrarão nesses banquetes dos prazeres a satisfação para sua alma.

-Também, a riqueza torna-se uma maldição quando é usada de forma egoísta, apenas para o deleite. Há indivíduos que fazem do dinheiro a razão da sua vida. Pessoas se casam, divorciam, matam e morrem pelo dinheiro. Muitas pessoas, sem uma dimensão da eternidade, tem sua vista obscurecida pelas coisas temporais e passageiras e, portanto, acabam se deixando dominar pela avareza, pelo desejo de acumulação de riquezas, que é uma insensatez total, como deixou bem claro Jesus na parábola do rico insensato (Lc.12:13-21) - “porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui”(Lc.12:15). Lamentavelmente, não são poucos os que acabam se perdendo na caminhada para o céu por causa do dinheiro.

A Bíblia revela que a avareza tem sido um obstáculo para muitos alcançarem a salvação: como nos casos do mancebo de qualidade (Mt.19:22; Lc.18:23); de Judas Iscariotes (Lc.22:3-6; João 12:4-6); de Ananias e Safira (At.5:1-5,8-10); de Simão, o mago (At.8:18-23) e; de muitos outros, como afirmou Paulo em sua carta a Timóteo (1Tm 6:9,10). Deus assim nos exorta: “se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o vosso coração” (Sl.62:10).

Que lugar o dinheiro tem ocupado em nossa vida? O relato de Lucas 18:18-24 revela a situação espiritual de muita gente. O texto fala de um homem que sentia sede de salvação, porém, tinha o grande obstáculo da riqueza, dos bens materiais, um dos maiores inimigos da vida espiritual. De todas as pessoas que vieram a Cristo, esse homem é o único que saiu pior do que chegou. Ele foi amado por Jesus, mas, mesmo assim, desperdiçou a maior oportunidade da sua vida. A despeito do fato de ter vindo à pessoa certa, de ter abordado o tema certo, de ter recebido a resposta certa, ele tomou a decisão errada. Ele amou mais o dinheiro do que a Deus, mais a terra do que o céu, mais os prazeres transitórios desta vida do que a salvação da sua alma.

3. Uma prosperidade baseada no “ser”

O texto bíblico deixa claro que Jó não era apenas um homem rico, mas o mais rico de sua geração no Oriente: “... de modo que era o homem mais rico de todos do oriente” (Jó 1:3). Jó superava todos os seus concorrentes. Ninguém se comparava a ele no que concernia à prosperidade financeira e à piedade pessoal. Jó era um homem realizado em sua vida financeira, em sua vida familiar e em seu relacionamento com Deus, contudo, sua prosperidade não era estabelecida somente no “ter”, mas, principalmente, no “ser”.

Jó sabia que a sua riqueza vinha de Deus, e sabia que seu amor deveria ser endereçado a Deus, e não às dádivas de Deus. Ele tinha claro em sua mente que o abençoador é melhor do que a bênção e que o doador é melhor do que suas dádivas. Quando o homem entende que tudo vem de Deus e tudo pertence a Deus, não tem dificuldade de colocar esse tudo nas mãos de Deus. O homem não trouxe nada para este mundo, nem vai levar nada dele.

III. UM HOMEM DE PROFUNDA PIEDADE PESSOAL

1. Um homem dedicado à família

Jó era um homem próspero e feliz, mas a maior riqueza dele era a sua família. No mundo oriental, ter uma família grande ainda hoje é sinal da bênção de Deus. Os filhos eram como flechas na mão do guerreiro. Os filhos são carregados pelos pais, são lançados rumo ao alvo certo, e se tornam os defensores dos pais. Os pais investem nos filhos, e depois recebem, o retomo desse investimento. Os pais semeiam na vida dos filhos, e mais tarde os filhos semeiam na vida dos pais. Os pais protegem os filhos quando são pequenos, e depois os filhos protegem os pais quando estes colocam os pés na terra da velhice.

Jó não era apenas um homem feliz, mas os seus filhos também tinham famílias felizes. Vejamos o registro bíblico:

“Seus filhos visitavam uns aos outros, e cada vez um deles fazia um banquete e mandava convidar suas três irmãs para comerem e beberem com eles” (Jó 1:4).

Precisamos aprender a celebrar como família. Precisamos cultivar a amizade na família. Os irmãos precisam ser amigos, amáveis e carinhosos uns com os outros. Nada mais alegra o coração dos pais do que ver que seus filhos andam na verdade e cultivam o amor.

Os filhos de Jó aprenderam a celebrar juntos em vez de se envolver em brigas e contendas. O homem sábio que teme a Deus entende que o dinheiro não une, divide; o dinheiro não aproxima, separa. Quanto mais rica é uma família, mais os filhos têm a tendência de se afastar uns dos outros. Mas, os filhos de Jó não eram assim; eles tinham tempo para estar juntos; eles festejavam seus aniversários juntos; eles convidavam uns aos outros; eles eram unidos; eles se amavam. Essa união foi fruto do investimento de Jó, foi fruto da criação que Jó deu a eles. Jó tinha tempo para os filhos; ele costurou o vínculo do amor que manteve os filhos unidos.

Qual foi o processo usado por Jó para manter seus filhos unidos? Colocá-los perto de Deus. Jó orava pelos seus filhos, fazia holocaustos em favor deles e exortava os filhos a não pecarem contra Deus.

Quando temos um relacionamento correto com Deus, então temos um relacionamento correto com as pessoas. Não podemos amar a Deus, a quem não vemos, se não amamos o nosso próximo, a quem vemos (1João 4:20). Quando cultivamos um relacionamento vertical, pavimentamos ao mesmo tempo um relacionamento horizontal. Quanto mais perto de Deus andarmos, mais perto das pessoas estaremos.

2. Um homem de moral e piedade

Uma das características de Jó: era um homem de moral e piedade, era temente a Deus (Jó 1:5).

“Sucedia, pois, que, tendo decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó, e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; porque dizia Jó: Porventura, pecaram meus filhos e blasfemaram de Deus no seu coração. Assim o fazia Jó continuamente”.

-Ser temente a Deus não é ter medo de Deus, mas, muito pelo contrário, é ter respeito a Deus, comportar-se de modo que se reconheça que Deus é o Senhor e que nós somos apenas Seus servos.

-Ser temente a Deus é reconhecer que Deus deve guiar nossos passos e que nós devemos obedecer-lhe, simplesmente porque Ele é o Senhor. Aqui repousa, aliás, a própria moralidade do servo do Senhor. Fazemos ou deixamos de fazer algo não porque tenhamos medo de Deus, mas porque reconhecemos que Ele é o Senhor e que cabe a Ele ordenar os homens sobre o que deve ser feito ou não.

-Ser temente a Deus é ser dependente de Deus, é negar o convite feito pelo inimigo de sermos autossuficientes e de querermos ser "pequenos deuses", dizendo, para nós mesmos, o que é certo ou o que é errado, exatamente a mensagem satânica que está sendo disseminada no mundo atualmente sob a roupagem do movimento Nova Era.

Jó era temente a Deus, reconhecia em Deus o senhorio sobre o universo e sobre a sua vida e, por isso, aborrecia o mal (Pv.8:13). A Bíblia diz que o temor do Senhor é o princípio da ciência (Pv.1:7), é o princípio da sabedoria (Sl.111:10). É no temor de Deus que Jó depositava a sua confiança (Jó 4:6), não sendo diferente conosco nestes dias (Pv.14:26), pois, ao temermos a Deus, sabemos que Ele é soberano e, portanto, reina antes da fundação do mundo, tendo, pois, o absoluto controle sobre todas as coisas, o que nos deixa tranquilos quanto à Sua bênção sobre nós e o cumprimento de Suas promessas a nosso respeito. Só poderemos alcançar a pureza se tivermos o temor do Senhor, pois só ele é limpo (Sl.19:9). Não temer a Deus é ser ímpio e, portanto, sem qualquer parte com o Senhor e com a vida eterna (Sl.36:1; Rm.3:12-18).

3. Um homem de vida consagrada

A piedade de Jó está evidente no cuidado espiritual que ele tinha com os filhos. Ele colocou-se na brecha em favor deles. Lutou não apenas para dar-lhes prosperidade e valores morais, mas, sobretudo, batalhou para vê-los caminhando no temor do Senhor. Jó não era apenas um conselheiro, mas também um intercessor. Vejamos o registro bíblico:

“Sucedia, pois, que, tendo decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó, e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; porque dizia Jó: Porventura, pecaram meus filhos e blasfemaram de Deus no seu coração. Assim o fazia Jó continuamente”.

Algumas verdades devem ser destacadas (Adaptado do Livro “As teses de Satanás”, de Hernandes Dias Lopes):

a) Jó se preocupava com a salvação dos filhos. Diz o texto que Jó oferecia sacrifícios de acordo com o número de todos eles. Jó, semelhante a Abraão, tinha um altar em sua casa. Ele sabia que seus filhos precisavam estar debaixo do sangue. Jó sabia que não há remissão de pecados sem derramamento de sangue. Jó não descansava enquanto não oferecia o sacrifício em favor dos filhos.

Nós, como Jó, nos preocupamos com a salvação do nossos filhos? Nossos filhos estão debaixo do sangue? Nossos filhos estão dentro da arca da salvação? Nossos filhos estão cobertos pelo sangue do Cordeiro?

É importante lutarmos para oferecer aos nossos filhos a melhor educação. É saudável oferecer aos filhos o melhor desta vida, contudo, a coisa mais importante que podemos dar aos nossos filhos é o conhecimento de Deus. O sucesso dos nossos filhos será consumado fracasso se eles não conhecerem Deus. As conquistas dos nossos filhos serão troféus de palha se eles não forem remidos pelo Senhor. As vitórias dos nossos filhos terão um sabor amargo se eles não forem filhos do Altíssimo. Eles podem receber todas as honras da Terra, mas, se eles não forem cidadãos dos Céus, nada disso aproveitará.

b) Jó se preocupava com a santificação dos seus filhos. O texto bíblico é claro: Jó chamava [seus filhos] para os santificar. Jó exercia forte influência sobre a vida dos filhos. Ele os chamava. Jó era proativo. Não esperava ser acionado. Ele tomava a iniciativa. Jó tinha tempo para os filhos. Ele não substituía presença por presentes. Ele os chamava, os santificava e investia na vida espiritual dos filhos.

c) Jó se preocupava com a intimidade de seus filhos com Deus. O registro bíblico é eloquente: “Talvez meus filhos tenham pecado e blasfemado contra Deus no coração (Jó 1:5). Jó se preocupava não apenas com a vida exterior dos filhos, mas, sobretudo, com os sentimentos do coração. Talvez a prosperidade pudesse levá-los a amar mais as coisas da terra que as coisas do céu. Talvez o conforto que a riqueza proporciona pudesse levá-los a excessos. Talvez, em suas celebrações, pudessem ultrapassar a fronteira do bom senso. Tudo isso era observado por Jó.

Os pais precisam estar atentos não apenas à aparência dos filhos, mas, sobretudo, à vida íntima deles. Não basta dar-lhes uma roupa de grife e colocá-los nas melhores escolas, se eles não temem a Deus no coração. Nós, que ficamos angustiados quando vemos nossos filhos doentes, temos nos preocupado com a pior de todas as doenças, o pecado, que pode destruí-los eternamente? Pai, você se preocupa com os problemas dos seus filhos? É amigo, confidente, conselheiro e intercessor deles? Seu coração está convertido ao coração dos seus filhos?

Muitos pais constroem verdadeiros impérios econômicos, mas perdem os filhos. Deixam robusta herança para os filhos, mas não os conduzem a Cristo para receberem a herança imarcescível. Tornam seus filhos famosos na terra, mas não conhecidos no Céu. Fazem de seus filhos verdadeiros monumentos do sucesso, mas não fazem nenhum investimento na vida espiritual deles.

d) Jó se colocava na brecha em favor dos filhos como um intercessor. Jó orava por todos os seus filhos; orava em favor de cada um deles, colocando diante de Deus especificamente a necessidade de cada filho. Cada filho tinha uma necessidade, um problema diferente, um temperamento diferente, uma causa diferente. Cada um tinha tentações diferentes, provas diferentes, necessidades diferentes.

Precisamos aprender a colocar no altar de Deus os nossos filhos e suas causas. Precisamos como Ana devolver os nossos filhos para Deus a fim de que eles realizem os sonhos de Deus, e não simplesmente os nossos sonhos. Precisamos, como os pais de Sansão, orar pelos nossos filhos antes mesmo de eles nascerem. Jó orava de madrugada pelos filhos.

Certamente Jó era um homem com uma agenda disputadíssima. Por ser o homem mais rico da sua região, tinha muitos negócios, muitos compromissos, muitos empregados para gerenciar, muitas pessoas para aconselhar, muitas assistências sociais para realizar. Sua agenda era congestionada com muitos afazeres, mas o melhor do seu tempo era dedicado para interceder pelos filhos. Ele gastava o melhor do seu tempo na “brecha” em favor dos filhos.

Jó não apenas orava pelos seus filhos, mas orava perseverantemente por eles. Jó era um homem de oração, um pai intercessor. Ele era o sacerdote do seu lar. Ele acreditava que seus filhos dependiam mais da bênção de Deus do que do dinheiro. Seus filhos eram ricos, mas careciam de Deus. Seus filhos tinham tudo, mas dependiam de Deus. O tudo sem Deus é nada. O sucesso sem Deus é fracasso. A maior necessidade dos filhos não é de coisas, é de Deus; não é de conforto, é de Deus; não é de bênçãos, é do Abençoador. Jó não abria mão de ver seus filhos aos pés do Senhor. Por isso, não desistia de orar por eles, mesmo que eles não estivessem mais debaixo do abrigo do seu teto.

CONCLUSÃO

Jó, este gigante da fé do Antigo Testamento, que era reto, íntegro e temente a Deus, e que se desvia do mal (Jó 1:1), não era somente isto que descremos nesta Aula, baseado no texto sagrado, ele era muito mais do que isto. Ele era rico, mas não punha o seu coração nas riquezas, era cônscio de que não passava de um mordomo daquilo que Deus lhe concedeu para usufruto. O próprio Deus testemunhou que Jó era o homem mais piedoso e correto que viveu na terra em sua geração (Jó 1:8) – “E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem sincero, e reto, e temente a Deus, e desviando-se do mal”. O caráter de Jó era impoluto, sua vida era ilibada e seu testemunho era irrepreensível. Outrossim, ele foi um homem possuidor de uma forte moralidade e sólida espiritualidade. Seu legado, ainda é um tesouro a ser conquistado. Oro a Deus para que nos conceda uma faceta do caráter e da piedade de Jó, pois é quase impossível, hoje, se assemelhar a ele plenamente. Que Deus nos ajude!