SENDO VERDADEIROS

 

Texto Base: Mateus 6.1-4

 “Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade, e em cujo espírito não há engano” (Sl.32:2).

Mateus 6:

1.Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus.

2.Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.

3.Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita,

4.para que a tua esmola seja dada ocultamente, e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente.

INTRODUÇÃO

Nesta Aula trataremos do caráter do seguidor de Cristo no que tange a autenticidade das suas atuações diante das pessoas. O cristão deve estar sempre com a verdade. A nossa motivação tem de ser sempre a melhor, nobre e sincera no Reino de Deus. Essa consciência do Reino protege-nos da hipocrisia. O termo hipocrisia é oriundo da atuação dos atores gregos que, no palco, representavam papéis, atitudes e gestos que não eram seus. Daí o termo passou a designar os que agem com fingimento e falsidade. Neste sentido, quando o Anticristo surgir ele tentará representar alguém; ele buscará roubar o lugar de Jesus Cristo. Mas todos acabarão por descobrir que ele, de fato, não é o Cristo (2Ts.2). O joio, por exemplo, é um hipócrita entre os vegetais; parece trigo, mas não é; ele é a figura mais perfeita do crente que não é autêntico. A hipocrisia é uma grande insensatez, pois aquilo que o homem esconde atrás das máscaras acaba por vir à tona.  O que é feito atrás dos bastidores acaba por vir à plena luz. Aquilo que é dito às escondidas acaba por ser proclamado dos eirados. O oculto sempre será revelado, se não for neste mundo, será no porvir. A Bíblia diz: “Até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma coisa” (Sl.139:12).

I. O ATO DE DAR ESMOLAS E A HIPOCRISIA

1. Definição de hipócrita

Segundo o dicionário Wycliffe, “no contexto da dramaturgia grega, o termo hipócrita era aplicado a um ator no palco do teatro; ele finge ser alguém que não ele mesmo”. O hipócrita encarna o papel de outra personagem e encena uma realidade diferente de sua vida; ele imita o outro e faz de conta que é o outro. Na vida real, o hipócrita “atua em um papel”, fingindo ser melhor do que realmente é; é alguém que simula a bondade; é uma pessoa que coloca em pratica um engano através da piedade fingida. Warren Wiersbe diz que, “na vida cristã, o hipócrita é alguém que tenta parecer mais espiritual do que é de fato”. O grande desejo do hipócrita é sempre o de aparecer exteriormente, mas o problema é que o lado interno, sua verdadeira natureza, não é revelado. Jesus combateu fortemente os fariseus hipócritas (Lc.12:1-12).

Jesus comparou a hipocrisia ao fermento que penetra na massa e a contamina por inteiro. Um pouco de levedo na massa do pão faz toda a massa inchar e crescer. Assim é a hipocrisia; ela penetra, contamina e incha a pessoa de soberba. Os fariseus faziam propagando de uma espiritualidade que não tinham; a piedade que demonstravam era uma farsa. Havia um abismo entre suas palavras e sua vida, entre seu exterior e seu interior. Enfim, “O hipócrita é um fingido, um desonesto que esconde a sua verdadeira personalidade atrás de uma máscara”.

2. A justiça pessoal

No capítulo 5 de Mateus, Jesus ensina que a justiça dos súditos do reino precisa exceder em muito a dos escribas e fariseus (Mt.5:20). No capítulo 6, Jesus alerta acerca do perigo de uma justiça que se autopromove e busca os holofotes do reconhecimento. Disse Jesus:

“Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste” (Mt.6:1-ARA).

A espiritualidade ostentatória é apresentada com o fim de ganhar o reconhecimento das pessoas, e nisso consiste toda a sua recompensa. A justiça deve ser praticada, mas não com uma propagando para o auto-engrandecimento. Os fariseus gostavam de tocar a “trombeta” para chamar a atenção do púbico, quando eles praticavam alguma ação como, por exemplo, dar esmola. Foi por isso que Jesus exortou os seus discípulos sobre isso: “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão” (Mt.6:2). Portanto, fazer ato de caridade e depois tocar “trombeta”, chamando atenção para si, é uma espiritualidade farisaica, e não cristã. Os seguidores de Cristo, que vivem seus ensinos, são conscientes de que nenhum ato de justiça pode ser praticado com a intenção de glorificação pessoal. Quem deve receber a glória pela justiça praticada é Deus (1Co.10:31; Cl.3:17; 1Pd.4:11), e não o ser humano.

Exercer uma espiritualidade que busca ser vista pelas pessoas com o propósito de ganhar a aprovação das pessoas, em vez de revestir-se de humildade com o fim de agradar a Deus, é soberba e está na contramão da verdadeira espiritualidade. Deus não requer apenas ação certa, mas, sobretudo, motivação certa. Aqueles que ostentam justiça para ganhar aplausos das pessoas não receberão nenhum galardão da parte de Deus.

3. As três práticas da ética cristã

As três práticas da ética do serviço cristão envolvem nossos bens (oferta), nosso espírito (oração) e o nosso corpo (jejum), e são direcionadas ao próximo, a Deus e a nós mesmos. Estes serviços piedosos do povo de Deus quando praticados com sinceridade e verdade, têm o reconhecimento do Senhor. Entretanto, deve-se ter muito cuidado, pois, mesmo as coisas mais sagradas podem ser corrompidas pelas motivações egoístas, como ocorria com os escribas e fariseus (Mt.6:2,5,16).

-Jesus advertiu os discípulos contra a hipocrisia ao dar ofertas e esmolas (Mt.6:2). Os escribas e fariseus hipócritas chamavam ruidosamente a atenção para si, à medida que davam ofertas nas sinagogas ou esmolas para os mendigos nas ruas. O Senhor reprendeu a conduta deles com um comentário conciso: “eles já receberam a recompensa (isto é, a única recompensa deles é a reputação que ganham enquanto estão na terra).

-Jesus, também, advertiu os discípulos contra a hipocrisia ao orar (Mt.6:5). Eles não deveriam se posicionar propositadamente em áreas públicas de forma que os outros, vendo-os orar, ficassem impressionados por suas devoções. Se o amor pela proeminência for o único motivo na oração, então, Jesus declara que a proeminência ganha é a única recompensa.

-A terceira forma de hipocrisia religiosa que Jesus denunciou é a evidência externa do jejum (Mt.6:16). Os hipócritas desfiguram o rosto quando jejuam para se aparentarem magros, desfigurados e sofredores. Mas Jesus diz que é ridículo tentar parecer santo. Os verdadeiros cristãos deveriam jejuar em segredo, não dando nenhuma evidência externa do jejum. A maneira normal de a pessoa aparecer é com a cabeça e o rosto lavados. É o suficiente para o Pai saber. Sua recompensa será melhor que a aprovação de pessoas.

Tem razão o pr. Osiel Gomes quando afirma que “a religião sensacionalista e espetacular do dissimulado religioso perverte a piedade, afinal, sua intenção é somente enganar e buscar os aplausos humanos”. O seguidor autêntico de Cristo deve realizar essas três práticas da ética cristã com sinceridade, sem hipocrisia, e unicamente com a finalidade de glorificar a Deus.

II. AUXILIANDO O PRÓXIMO SEM ALARDE

1. Qual é a motivação do teu coração?

Certa feita, Jesus disse, no chamado “sermão da planície”, que Seus discípulos devem ser liberais, ajudando os necessitados. Aliás, a misericórdia é uma prática esperada do cristão (Mt.6:2). Jesus não diz “se deres esmola”, mas “quando deres esmola”. Com essas palavras, espera-se que o cristão exerça a misericórdia com os necessitados. Um coração regenerado prova sua transformação em atos de misericórdia.

O Senhor diz que devemos dar àqueles que necessitam, sabendo que teremos uma recompensa da parte de Deus (Lc.6:38). O Senhor aqui ensina que o desprendimento dos bens materiais deve ter o alcance de voluntariamente darmos aquilo que ganhamos em favor dos que necessitam, sabendo que o dono de todas as coisas é o próprio Deus e que, em assim agindo, não estaremos nos privando de nossa sobrevivência, pois ela está nas mãos de um Deus que sempre nos proverá.

O que precisamos entender é a real motivação de nossa generosidade, pois às vezes, a mão pode dar uma oferta, um presente, uma ajuda ao necessitado, mas a motivação oculta do coração pode ser outra. Como bem diz o pr. Osiel Gomes, “o crente deve buscar ser sincero na sua contribuição, fazendo isso na íntima satisfação de sua mente e no Espírito de Cristo, pois Ele sabe a motivação do seu coração quando estende as mãos para dar (Mt.9:4; 12:25; 22:18; João 16:19)”.

2. O que buscamos quando auxiliamos o próximo? 

Auxiliar o próximo em suas necessidades, principalmente os domésticos da fé, é uma expressão legitima da espiritualidade cristã. O socorro aos necessitados é uma expressão da verdadeira fé. Quem ama a Deus, prova isso amando ao próximo. O apóstolo Tiago afirma que “a religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo” (Tiago 1:27). Quem foi alvo da misericórdia divina, é instrumento da misericórdia ao próximo.

O crente não é salvo pelas obras de caridade, mas evidencia sua salvação por meio delas. A salvação não é pelas boas obras, mas para as boas obras. A graça é a causa da salvação, a fé é o instrumento, e as boas obras, o resultado. Porém, a prática da misericórdia não pode ser ostentatória, não pode resultar na promoção da pessoa que pratica a generosidade; quem age tocando “trombeta” pelo que faz, para chamar atenção das pessoas, sempre será visto por Jesus como um hipócrita. Os fariseus agiam dessa maneira, e Jesus os chamou de hipócritas – “Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas...” (Mt.6:2). O Senhor Jesus disse que se a nossa justiça não ultrapassar a dos fariseus, não teremos parte no seu Reino (Mt.5:20). Deus condena a hipocrisia de pessoas que praticam boas ações, não por misericórdia ou outros bons motivos, mas para obter glória diante das pessoas.

A misericórdia ostentatória só tem recompensa dos homens, e não de Deus. Portanto, a misericórdia precisa vir de mãos dadas com a discrição. O cristão não auxilia o próximo para ser visto nem para ser exaltado pelos homens, e sim para que o necessitado seja suprido e Deus seja glorificado. Aquilo que é feito ao próximo em secreto, longe dos holofotes, recebe de Deus, que vê em secreto, a verdadeira recompensa. “O que dar ao pobre não terá falta...” (Pv.28:27).

3. A maneira de ofertar segundo Jesus

A oferta é uma demonstração material de reconhecimento da soberania divina. Deus Se agrada do gesto de gratidão e reconhecimento, do que está no coração do homem, não do que está sendo apresentado em termos materiais. Tanto assim é que, ao indagar Caim sobre sua oferta, Deus diz que ele deveria ter feito bem, ou seja, não como mero formalismo, não como um mero ritual, mas como algo espontâneo, e que proviesse do fundo da alma, pois, somente neste caso é que haverá aceitação por parte do Senhor (Gn.4:7). No Novo Testamento, este Deus que não muda nem nEle há sombra de variação (Tg.1:17), torna a nos ensinar que Ele ama aquele que dá com alegria (2Co.9:7). A oferta deve ser feita de duas maneiras: primeiro, sem alarde público; segundo, deve ser voluntária e discreta, e conforme tiver proposto no coração (2Co.9:7).

Caro irmão, você contribui financeiramente para a obra do Senhor? Você faz isso impulsionado pelo amor ao reino de Deus, ou por constrangimento ou por obrigação ou por interesse em barganhar com Deus? De que adianta contribuir por constrangimento ou obrigação ou mesmo por interesse? Deus não precisa do nosso dinheiro. Ele é o dono da prata e do ouro - “Do Senhor é a Terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam” (Sl.24:1; Dt.10:14; 1Co.10:26). Logo, somos cônscios de que tudo pertence a Deus e que somos apenas mordomos, devendo prestar contas ao verdadeiro dono do universo do que nos foi dado para administrar. Portanto, temos de contribuir impulsionados pelo amor abnegado e desinteresseiro. Um detalhe importante: Deus não está preocupado com a quantia que entregamos à sua obra, mas com o nível de desprendimento, amor e fé. Que sejamos mordomos fiéis do Senhor, sabendo que “o meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória, por Cristo Jesus” (Fp.4:19).

III. DEUS CONTEMPLA O BEM QUE REALIZAMOS

1. O Deus que tudo vê

“...todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas” (Hb.4:13). Deus tudo vê; Ele é Onisciente e Onipresente. Então, Ele sabe de tudo o que realizamos e o que necessitamos, antes que lho peçamos (Mt.6:8). Se é assim, então por que oramos? Perguntam alguns. Muitas pessoas dizem que não é preciso orar porque Deus já sabe de nossas necessidades e, portanto, seria inócuo querermos mostrar a Deus o que precisamos. Entretanto, este pensamento está completamente equivocado, porque não oramos para que Deus saiba o que precisamos, mas, sim, porque cremos que Deus suprirá as nossas necessidades. A oração é uma atitude que deve demonstrar a nossa fé em Deus. Quando recorremos ao Senhor em oração estamos reconhecendo que Ele tem o controle sobre todas as coisas, e que pode suprir as nossas necessidades. Por isso, a oração é uma atitude que deve ser uma constante na vida de quem serve ao Senhor, pois é algo que nos aproxima de Deus, que nos santifica (1Tm.4:4,5).

2. O Deus que recompensa

Para mostrar que o Senhor é o Deus que recompensa seus servos, sem acepção de pessoas, pelo trabalha realizado em seu Reino, cito aqui a parábola dos trabalhadores na vinha (Mt.20:1-16). A história contada por Jesus tem como finalidade nos mostrar que a recompensa de Deus não depende apenas do que a pessoa faz, mas do fato que Deus é bom; a recompensa é com base em um princípio da graça de Deus, e não de mérito do trabalhador da “vinha”. Essa “vinha” ilustra o Reino de Deus, e nesse Reino há lugar para que todos possam servir.

Esta parábola fala de um pai de família que sai em busca de trabalhadores para a sua vinha. Ele vai, chama esses trabalhadores e os convida a vir para a sua vinha, prometendo lhes dar o que for justo (Mt.20:3). No fim do dia, o dono da vinha chama os seus trabalhadores, começando pelos últimos, e acerta os seus salários. Os trabalhadores ficam surpreendidos com o fato de que todos eles recebem o mesmo salário, pois o dono da vinha não faz distinção entre aqueles que trabalharam mais tempo ou menos tempo. Há muito serviço a ser feito, pois Jesus breve virá buscar a sua Igreja.

Nesta parábola, vemos que cada trabalhador recebe a justa retribuição por seu salário. Quando servimos a Deus em obediência e fidelidade, haveremos de ser recompensados. É isto que aprendemos na parábola dos talentos; o Senhor diz aos servos fiéis: “foste fiel no pouco e sobre o muito te colocarei”. Davi em seu cântico de gratidão ao Senhor, no livro de 2Sm.22:25, diz: “O Senhor me retribuiu segundo a minha justiça, conforme a minha pureza diante dos seus olhos”. Nesta caminhada com Cristo passamos por lutas, mas devemos lembrar da recomendação que nos faz Hebreus 10:35: “Portanto, não lanceis fora a vossa confiança, que tem uma grande recompensa”.

O pai de família, na parábola dos trabalhadores na vinha, cuida de tudo pessoalmente; ele contrata e ordena o pagamento. Cada um de nós será chamado para receber a nossa recompensa quando nosso “dia” findar. Deus irá recompensar cada um segundo seu procedimento. O Senhor cuidará para que, nas operações da sua graça, tanto a sua soberania quanto a sua bondade, sejam abundantes.

Há muitos que param de servir a Deus quando obstáculos surgem no caminho. Conta-se uma história de um rei que colocou uma pedra enorme no meio de uma estrada. Escondeu-se para ver se alguém a tiraria. Alguns mercadores ricos passaram e simplesmente deram a volta. Alguns até esbravejaram dizendo que o rei não mantinha as estradas limpas. Passa um camponês, se aproxima da rocha, põe de lado a sua carga. Após muita força, conseguiu mover a pedra. Embaixo da pedra, ele notou que havia uma bolsa cheia de moedas e havia uma nota escrita pelo rei que dizia que o ouro era para a pessoa que tivesse removido a pedra do caminho. Ao invés de reclamarmos das dificuldades, devemos pedir ajuda a Deus para vencê-las, pois em cada prova vencida, mais perto de Deus chegamos e da sua recompensa.

CONCLUSÃO

Ser um cristão verdadeiro implica em ser “diferente” da pessoa natural, é ser honesto, é ser íntegro, é andar na verdade, enfim, é carregar a vida de Cristo dentro de nós, é andar como Jesus andou, é cumprir as Suas ordenanças e fazer o que Ele fez. O cristão verdadeiro procura a cada dia ser parecido com Jesus.

NÃO RETRIBUA PELOS PADRÕES HUMANOS


 Texto Base: Mateus 5.38-48

“Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor” (Lv.19:18).

Mateus 5:

38.Ouvistes o que foi dito: Olho por olho e dente por dente.

39.Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;

40.e ao que quiser pleitear contigo e tirar-te a vestimenta, larga-lhe também a capa;

41.e, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.

42.Dá a quem te pedir e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.

43.Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo.

44.Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem,

45.para que sejais filhos do Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos.

46.Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?

47.E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?

48.Sede vós, pois, perfeitos, com o é perfeito o vosso Pai, que está nos céus.

INTRODUÇÃO

Nesta Aula trataremos do mandamento da não retaliação; retribuir com o bem a pessoa que nos fez o mal é um desafio enorme a enfrentar. Quando se recebe uma ofensa, a reação natural é devolvê-la com outra. Entretanto, o Senhor Jesus nos convida a agir de uma maneira quase sobrenatural, pondo em prática a instrução de Jesus proferida no Sermão do Monte. No Antigo Testamento a lei dizia: “olho por olho, dente por dente” (Êx.21:24; Lv.24:20; Dt.19:21); mas, no Sermão do Monte, Jesus aboliu totalmente a retaliação. Ele mostrou aos discípulos que, onde a retaliação era permitida legalmente, a não resistência era agora graciosamente possível. Jesus instruiu seus seguidores a não oferecer resistência ao perverso, e sim fazer o bem àqueles que nos ofendem; ao invés da vingança, devemos amar e perdoar. Não é fácil cumprir essa determinação de Jesus, mas a nossa posição de filhos de Deus exige que ajamos dessa maneira (Mt.5:45) – “para que sejais filhos do Pai que está nos céus...”. Somente o crente cheio do Espírito Santo é capaz de viver esse ensino do Sermão proferido pelo nosso Senhor.

I. A VINGANÇA NÃO É NATUREZA DO REINO

1. A Lei de Talião

A Lei de Talião é uma das mais antigas leis do mundo; baseia-se no princípio da retaliação equitativa. Segundo os estudiosos, essa lei chama-se “lex talionis”. Foi incluída na lei mosaica. Encontra-se três vezes no Antigo Testamento:

“Mas, se houver dano grave, então, darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe” (Êx.21:23-25).

“fratura por fratura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará” (Lv.24:20).

“Não o olharás com piedade: vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” (Dt.19:21).

Embora esta lei pareça ser um instrumento de vingança, a intenção original era restringir a vingança ilimitada; deveria ser entendida como apenas “olho por olho” e apenas “dente por dente”. Além disso, nunca teve o objetivo de propiciar qualquer retaliação individual; se tratava de uma norma para os tribunais civis, que no seu propósito desejava que em particular a pessoa jamais praticasse a vingança pessoal; deveria ser aplicável somente pelos juízes.

Na época de Jesus, porém, os fariseus interpretavam erroneamente essa Lei, usando-a com o propósito de justificar a vingança, a retribuição pessoal, descaracterizando-a do seu real significado e objetivo. Todavia, em momento algum, a Lei de Moisés defendia a busca pela vingança.

Embora possa parecer primitivo, na verdade o princípio de justiça da lei assegurava o bem-estar social e a justiça em Israel. Enquanto a maioria das nações usavam métodos arbitrários para punir os criminosos, o padrão de justiça estabelecido por Deus para a época reflete a preocupação com a verdade e a imparcialidade, pois assegurava aos que violavam a Lei que não seriam punidos com mais severidade do que mereciam pelo crime que cometeram, ao mesmo tempo que evitava o falso testemunho, visto que quem forjasse acusação contra alguém receberia a punição imputada ao culpado.

A Bíblia, mesmo no Antigo Testamento, proíbe terminantemente a vingança pessoal. Veja os seguintes textos bíblicos:

“Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor” (Lv.19:18).

“Não sejas testemunha sem causa contra o teu próximo, nem o enganes com os teus lábios. Não digas: Como ele me fez a mim, assim lhe farei a ele; pagarei a cada um segundo a sua obra” (Pv.24:28,29).

“Se o que te aborrece tiver fome, dá-lhe pão para comer; e, se tiver sede, dá-lhe água para beber” (Pv.25:21).

“Dê a face ao que o fere; farte-se de afronta. O Senhor não rejeitará para sempre” (Lm.3:30,31).

É muito fácil não perceber a misericórdia contida na Lei, mas os textos citados acima comprovam que Deus projetou um sistema de justiça com misericórdia; porém, este foi deturpado ao longo dos anos e considerado uma licença para a vingança. Jesus sabia disso, por isso Ele combateu esta aplicação equivocada da Lei mosaica (Mt.5:38,39): “Ouvistes o que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao perverso...”.

2. O cristão e a vingança

O cristão é aquele que parece com Cristo; que age como Cristo agiu; que ama com Cristo amou. Logo, o cristão nunca pode cometer vingança pessoal, fazendo justiça com as próprias mãos. No Sermão do Monte, Jesus eliminou a antiga Lei da vingança pessoal, que permitia a retaliação, e introduz a reação transcendental diante das injustiças sofridas (Mt.5:38-41). Mesmo que as pessoas nos desonrem, ferindo nosso rosto; mesmo que as pessoas nos constranjam a andar, ferindo nossa vontade; mesmo que as pessoas tomem de nós a roupa do corpo, bem inalienável, devemos reagir de maneira transcendente. No Reino de Deus, o súdito domina não apenas suas ações, mas também suas reações. No Reino de Deus, o amor é a identidade do cristão - ele prega e vive o amor, não o ódio, e tem consciência plena de que Deus tem reservado um dia em que há de julgar todos os pecados da humanidade, tomando vingança de tudo (At.17:31; At.10:42; Rm.2:16; 14:10). Paulo foi muito contundente quando afirmou:

“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor. Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm12:19-21).

Paulo nos aconselhou a sermos amigáveis, em vez de retribuirmos em justa medida, quando alguém nos ofende profundamente. Entretanto, na época em que vivemos, onde há muitas ações judiciais e incessante reivindicação por direitos legais, a prática recomendada por Paulo parece ser quase impossível de ser praticada. Por que o apostolo Paulo nos disse para perdoarmos os nossos inimigos? Porque:

  • O perdão pode quebrar um ciclo de retaliações e levar a uma reconciliação mútua.
  • O perdão pode levar o inimigo a envergonhar-se e a mudar de comportamento.
  • Ao pagar o mal com o mal, vamos ferir-nos tanto quanto ferimos nosso inimigo. Mesmo que este nunca se arrependa, ao perdoá-lo, vamos libertar-nos do grande peso da amargura.

O perdão envolve atitudes e ações. Se você considera difícil sentir-se disposto a perdoar alguém que acabou de ofendê-lo, tente responder com atos de bondade. Se for o caso, diga a essa pessoa que gostaria de recuperar seu relacionamento com ela. Estenda a mão, seja empático. Você descobrirá que ações corretas levam a sentimentos corretos.

II. O AMOR É A EXPRESSÃO NATURAL DO REINO

No Reino de Deus, o amor deve reger nossos relacionamentos. O amor é o sistema circulatório do corpo espiritual do crente, permitindo que todos os membros funcionem de maneira saudável e harmonioso. A exortação de Paulo aos Romanos ecoa em toda a Igreja: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal” (Rm.12:10a). No Reino de Deus não há espaço para o ódio, para retaliação, para a vingança; o amor é a expressão maior (1Co.13:13).

No Reino de Deus, o perdão é o botão que deve ser acionado no momento de discórdia. Muitas pessoas são capazes de viver em paz com aqueles que lhes tratam com amor, mas são incapazes de perdoar aqueles que lhes prejudicam. Jesus ilustra isso no Sermão do Monte (Mt.5:39-41); Ele diz que quando uma pessoa nos ferir a face direita, devemos voltar-lhe a outra face. Quando a pessoa nos forçar a andar uma milha, devemos ir com ela duas milhas e quando ela procurar nos tirar a túnica, devemos dar-lhe também a capa. O que, na verdade, Jesus estava ensinando? Ele não estava falando de ação, mas de reação. O que representa essas três figuras alistadas por Jesus?

  • Primeiro, quando uma pessoa nos fere no rosto, ela agride a nossa honra.
  • Segundo, quando uma pessoa nos força a fazer o que não desejamos, ela agride a nossa vontade.
  • Terceiro, quando uma pessoa nos toma as vestes pessoais, ela agride o nosso bem mais íntimo e sagrado.

Mas, Jesus realça dizendo que mesmo que os pontos mais vitais da vida sejam atingidos - como a honra, a vontade e os bens inalienáveis -, devemos reagir transcendentalmente, ou seja, com perdão. Segundo Hernandes Dias Lopes, o perdão é a transcendência do amor; é vencer o mal com o bem. Perdoar é tratar o outro não como ele merece, mas segundo a misericórdia exige. O perdão não é a execução da justiça, mas o braço estendido da misericórdia. Perdoar é não se ressentir do mal, mas vencer o mal com o bem, abençoando o próprio malfeitor.

É bom enfatizar que o Senhor Jesus também condena as guerras agressivas ou as ofensivas que as nações fazem entre si, mas não necessariamente a guerra defensiva ou a defesa contra o roubo e o assassinato. Segundo A.T. Robertson, “o pacifismo profissional pode ser mera covardia”.

1. Virar a outra face

“...se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt.5:39). Ao receber um tapa no rosto, não é fácil suportar passivamente. É uma atitude que afronta a honra de uma pessoa. Muitas das vezes, quando a nossa honra é aviltada, a primeira reação é agir com as mesmas armas do ofensor, e, às vezes, até mesmo de maneira mais intensa. Todavia, reagir no mesmo padrão de violência e ignorância, complica ainda mais a situação.

Na época de Jesus, macular a honra de uma pessoa, era um ato difícil de ser suportado; até hoje revela a maior ofensa possível. Mas, se isto acontecer, a atitude correta que o crente deve proceder, segundo a orientação de Jesus, é não retaliar, mas perdoar. Isso não é uma coisa natural, é sobrenatural. Somente Deus pode nos dar forças para que amemos como Ele ama. Quem tem amor, tem perdão, brandura e tolerância.

As pessoas que não têm Cristo no coração defendem a vingança; cada um cuida de si e protege seus “direitos pessoais”. Todavia, os seguidores de Jesus não devem se prender rigorosamente aos seus “direitos”, e preferir esquecer esses direitos por amor do Evangelho e do Reino de Deus. Entretanto, estar disposto a abandonar os direitos pessoais não significa que o crente deve sentar passivamente enquanto o pecado caminha livremente.

2. Arrastar para o tribunal

De acordo com a Lei judaica, aquele que agredia a face de alguém enfrentava um castigo e uma pesada multa. Desse modo, a lei tomava o partido da vítima. Mas no Sermão do Monte, Jesus disse que em tal situação a pessoa agredida não deve recorrer aos tribunais, mas oferecer a outra “face” para que seja igualmente agredida. Parece um contrassenso, mas Jesus não pediu que os seus seguidores fizessem alguma coisa que Ele mesmo nunca faria; Ele recebeu esse tratamento e fez como havia mandado que os outros fizessem (cf. Mt.26:67,68; veja também Isaías 50:6; 1Pd.2:23). Jesus queria que seus seguidores tivessem aquela atitude abnegada que prontamente segue o caminho da cruz ao invés do caminho dos direitos pessoais. Eles deviam confiar inteiramente em Deus, que um dia colocará todas as coisas em seus devidos lugares.

Para a maioria dos judeus, essas afirmações de Jesus eram uma afronta. Qualquer Messias que oferecesse a outra face não seria líder militar da revolta contra o império ocupante, que era Roma. Como os judeus estavam sob o domínio romano, eles queriam uma retaliação contra os inimigos, a quem odiavam. Mas, Jesus estava sugerindo uma nova e radical resposta à injustiça; ao invés de exigir os direitos, deviam desistir deles livremente. De acordo com Jesus, é mais importante oferecer justiça e misericórdia do que recebê-las. Ser cristão de verdade não é fácil!

3. Largar também a capa

“e ao que quiser pleitear contigo e tirar-te a vestimenta, larga-lhe também a capa” (Mt.5:40). Aqui, Jesus está afirmando que, quando uma pessoa nos toma as vestes pessoais, ela agride o nosso bem mais íntimo e sagrado. Era muito difícil fazer vestimentas, e consumia muito tempo. A “vestimenta” (ou túnica) era uma veste interna usada junto à pele. A “capa” (ou manto) representava um bem precioso. As capas eram muito caras e a maioria das pessoas possuía apenas uma. A capa podia ser usada como cobertor, como saco para carregar coisas, como almofada para sentar, como penhor de uma dívida, como cama (Êx.22:26,27; Dt.24:12,13; Am.2:8) e, naturalmente, para vestir. Portanto, quando Jesus disse que se alguém “tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa” (Mt.5:40), Ele estava pedindo uma atitude muito difícil aos seus seguidores; mas Ele esperava que eles deveriam se desprender das suas posses em prol de um bem maior - a paz com todos. Jesus ensina que mesmo que os pontos mais vitais da vida sejam atingidos - como os bens inalienáveis -, devemos reagir transcendentalmente, ou seja, com perdão. O perdão não é a execução da justiça, mas o braço estendido da misericórdia. Perdoar é renunciar aos nossos direitos.

4. Obrigar a fazer algo

“e, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas” (Mt.5:41). Aqui, Jesus está ensinando que, quando uma pessoa nos força a fazer o que não desejamos, ela agride a nossa vontade. Aquele que é mais forte, por força da hierarquia, pode obrigar alguém a cumprir determinada ordem, mesmo sem respeitar a sua vontade, como ocorreu com o Simão Cirineu, que foi obrigado a carregar a cruz de Jesus (Mt.27:32). Assim, quando alguém anda a primeira “milha”, geralmente o faz por obrigação; entretanto, para caminhar voluntariamente a segunda “milha’, só o faz quem é nascido de novo, e por amor a Jesus. Apesar da agressão contra a nossa vontade, a atitude do seguidor de Cristo é o exercício do perdão. Muitas pessoas são incapazes de perdoar aqueles que lhes prejudicam. O perdão é a transcendência do amor, é vencer o mal com o bem.

Essa passagem de Mateus 5:41 é uma alusão ao trabalho forçado que os soldados podiam exigir dos cidadãos comuns para transportar sua carga por certa distância (uma milha era o termo usado para mil passos). Os judeus odiavam essa lei porque os forçava a mostrar sua submissão a Roma. No entanto, Jesus disse para tomar a carga e carregá-la por duas milhas. Jesus estava pedindo uma atitude servil (como Ele mostrou ao longo de Sua vida, e especialmente na cruz). As suas palavras provavelmente surpreenderam os ouvintes. A maioria dos judeus, que esperava um Messias militar, nunca esperaria ouvir Jesus pronunciar uma ordem contra a retaliação, e de cooperação com o odiado império Romano. Mas estas palavras de Jesus estavam revelando que seus seguidores pertenciam a outro Reino; eles não precisavam tentar lutar contra Roma, porque isso não estava de acordo com o plano de Deus; deveriam, antes, trabalhar em benefício do Reino de Deus. Se isso significasse caminhar uma milha a mais carregando a carga de um soldado romano, então era exatamente isso que deveriam fazer. Ser cristão de verdade não é fácil! Só o Espírito Santo pode nos mover à obediência de caminhar uma milha a mais carregando a carga do inimigo!

5. Fazer alguma coisa por alguém

“Dá a quem te pedir e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes” (Mt.5:42). Aqui, Jesus reafirma o que Moisés ensinara em Deuteronômio 15:7-11. Nunca devemos nos negar a dar. Dar é tanto um privilégio como uma responsabilidade. “Mas bem-aventurado é dar que receber” (Atos 20:35). Os seguidores e Jesus, portanto, devem estar dispostos a colocar as necessidades dos outros à frente das suas próprias necessidades.

III. BUSCANDO A PERFEIÇÃO DE CRISTO

1. Uma justiça mais elevada

A justiça, exigida por Cristo no Sermão do Monte (Mt.5:43-48), é mais elevada porque ela estabelece um padrão que é incompatível com a natureza humana caída. Ali, Jesus explica que os seus seguidores devem viver de acordo com um padrão mais elevado do que aquele esperado pelo mundo, e, até mesmo, dos padrões aceitos pelas religiões do mundo. Disse Jesus: “Amai a vossos inimigos... e orai pelos que vos maltratam e vos pespeguem” (Mt.5:44). Por que o mandamento de amar os inimigos? Porque isso identificará os seguidores de Jesus como pessoas diferentes, que têm o coração e a mente dirigidos somente a Deus, que é o único que pode ajudá-los a agir deste modo. Qualquer um que pode amar alguém que o ama, isso acontecia naturalmente até com os corruptos publicanos (coletores de impostos). Da mesma maneira, “se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?” (Mt.5:47). Se nossos padrões não são mais altos que os do mundo, é óbvio que nunca causaremos um impacto no mundo. Portanto, se você puder amar o vosso inimigo e orar pelos que vos maltratam e vos perseguem, então você estará mostrando realmente que Jesus é o Senhor da sua vida. Aqueles discípulos que vivem para Cristo e são radicalmente diferentes do mundo receberão sua recompensa.

2. O amor mais perfeito

Disse Jesus: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos...” (Mt.5:43,44). Este ensino de Jesus concernente à mais alta retidão exigida no seu Reino nos manda amar o nosso inimigo, caso exista, claro. A lei tinha ensinado aos israelitas a amar o próximo (Lv.19:18), mas os rabinos alteraram a lei de Deus, acrescendo ao mandamento: “...e aborrecerás o teu inimigo” (Mt.5:43). Essa declaração não aparece na Lei. Não consta em Levítico 19:18. Foi um acréscimo ilegítimo dos mestres da Lei. Textos como Êxodo 23:4,5 indicam exatamente o contrário. Jesus repudiou firmemente essa conclusão rabínica.

Em Romanos 12:20, Paulo cita Provérbios 25:22 para exortar que devemos tratar os nossos inimigos amavelmente. Jesus nos ensinou a orar pelos nossos inimigos - “amai a vossos inimigos” (Mt.5:44), e Ele mesmo o fez quando estava pendurado na cruz. O amor aqui descrito é ágape, que significa benevolência invencível, infinita boa vontade. Isso significa que devemos amar a pessoa, não importa quem ela seja ou que tenha feito contra nós. Esse amor não é questão apenas de sentimentos, mas, sobretudo, de atitude, atitude benevolente.

É claro que amar o inimigo não é o mesmo que as afeições naturais, porque não é natural amar os que o maltratam e o odeiam. Amar o inimigo é uma graça sobrenatural, e somente pode ser manifestada pelos que nasceram de novo e têm o Espírito Santo em sua vida. Jesus disse que seus seguidores deveriam retribuir o mau com o bem, a fim de que pudessem ser filhos do Pai celeste (Mt.5:45). Ele não está querendo dizer que esse é o caminho para se tornar filho de Deus; pelo contrário, é para mostrarmos que somos filhos de Deus. Já que Deus não mostra parcialidade aos maus e bons (ambos se beneficiam do sol e da chuva), deveríamos agir com todos de forma graciosa e honesta. “O perfeito amor é um interesse ativo por todas as pessoas, em todos os lugares, independentemente de elas receberem ou não esse amor” (Roberto H. Mounce. Mateus).

3. Perfeitos como o Pai

Disse Jesus: “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai, que está no céu” (Mt.5:48). O que Jesus quer dizer aqui? A perfeição para a qual Jesus conclama seus seguidores está definida no contexto. Não significa sem pecado ou impecável. Os versículos anteriores explicam que para ser perfeito, precisamos amar os que nos odeiam, orar pelos que nos perseguem e mostrar bondade tanto para com os amigos como para com os inimigos. Os seguidores de Cristo poderão ser perfeitos, se o comportamento for apropriado ao seu nível de maturidade espiritual, isto é, perfeitos, mas, ainda com muito espaço para crescer. Perfeição, aqui, portanto, é a maturidade espiritual que faz o cristão capaz de imitar Deus, ministrando bênçãos e perdão a todos sem parcialidade.

Com frequência, Mateus 5:48 tem sido mal interpretado; tem servido como texto-base para a doutrina da perfeição cristã, que requer do cristão impecabilidade moral absoluta. Isso jamais acontecerá aqui, pois a nossa natureza carnal não foi removida quando da nossa conversão. Ainda buscamos a medida da estatura completa de Cristo (Ef.4:13), que se concretizará somente na nossa glorificação, que ocorrerá quando formos arrebatados pelo Senhor Jesus por ocasião de sua volta; nesse glorioso evento, o nosso corpo, que é mortal, se revestirá da imortalidade (1Co.15:54) e, portanto, a presença do pecado será debelada para sempre. Portanto, “convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade” (1Co.15:53), para que nos tornemos perfeitos como o Pai celestial.

CONCLUSÃO

O nosso Senhor resumiu toda a lei ao dizer que o seu objetivo é levar os homens à plenitude do amor. Portanto, quer cumprir a Lei de Deus de todo coração? Ame indistintamente. Contra o amor não há lei. Por quê? Porque o amor é o cumprimento da lei (Rm.13:10). Em vez de decorarmos uma lista de "pode e não pode", devemos fazer tudo baseado no amor divino, então cumpriremos a lei de Deus na íntegra. Disse o apóstolo Paulo: “... tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor" (Rm.13:9,10).