SAL DA TERRA, LUZ DO MUNDO

 


Texto Base: Mateus 5:13-16

“Vós sois o sal da terra; [...] Vós sois a luz do mundo” (Mt.5:13,14).

Mateus 5:

13.Vós sois o sal da terra; e, se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens.

14.Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte;

15.nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas, no velador, e dá luz a todos que estão na casa.

16.Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus.


INTRODUÇÃO

Nesta Aula trataremos do seguinte tema: “SAL DA TERRA, LUZ DO MUNDO”. No sermão do monte, Jesus disse que os Seus discípulos são luz do mundo e sal da terra (Mt.5:13-16). A ilustração do sal fala do nosso caráter; a luz fala do nosso testemunho. Note-se que, como Cristo falou primeiro no sal da terra e depois na luz do mundo, assim o caráter precede o testemunho. Tanto a luz quanto o sal modificam, alteram o ambiente onde se encontram, e se constituem em dois excelentes símbolos para que entendamos o valor do testemunho cristão.

Jesus usou essas duas metáforas para descrever a influência da Igreja no mundo. O sal trata da sua influência interna; a luz descreve a sua influência externa. O sal influencia sem ser visto; a luz influencia sem deixar de ser visto. O sal influencia ao infiltrar-se, a luz influencia ao irradiar-se. O sal, embora não possa ser visto, é sentido; a luz, embora não possa deixar de ser vista, é reveladora.

É oportuno que venhamos a verificar estas duas figuras, pois elas são um ensino precioso para que saibamos estabelecer os parâmetros de nosso comportamento, para sabermos se, efetivamente, temos sido discípulos do Senhor ou se, ao contrário, temos sido apenas motivo de escândalo, obstáculos à propagação do Evangelho e à salvação das almas. Ser “luz” e ser “sal” é afirmar que há uma contradição, uma oposição entre o modo de viver da Igreja e o modo de viver do mundo. A realidade é que o Reino de Deus e o mundo são distintos, é como luz e trevas, porém estão relacionadas entre si: de um lado, a decomposição; do outro, a preservação; de um lado, a escuridão; do outro, a iluminação. O efeito preservador faz cessar a decomposição, e a iluminação faz enxergar na escuridão. Assim, ao apresentar estas duas figuras para indicar qual deve ser o comportamento da Igreja, Jesus simplesmente está a Se apresentar como o modelo desta Igreja. Por isso, como afirmou o escritor Charles M. Seldon em seu famoso livro, a principal diretriz da ética cristã é perguntar, antes de tomar qualquer atitude ou decisão: “Em seus passos, que faria Jesus?”.


I. SAL TEMPERA E CONSERVA

1. Definição

Segundo os estudiosos, o sal é uma substância cristalina e ordinariamente branca, solúvel em água e crepitante ao lume. Trata-se do cloreto de sódio, que se pode encontrar na água do mar ou em algumas massas sólidas. A química descreve que sal é todo produto resultante da reação entre um ácido e uma base, que, quando dissolvidos em água, liberam um cátion diferente do H+ e um ânion diferente do OH-. O sal que consumimos, o cloreto de sódio (NaCl), é produto da reação entre ácido clorídrico e hidróxido de sódio.

Os registros do uso do sal pelo ser humano remontam há cinco mil anos. Ele já era usado na Babilônia, no Egito, na China e em civilizações antigas, principalmente como moeda, como forma de conservar alimentos e para lavar, tingir e amaciar o couro. Também, é usado como condimento (para temperar as refeições) e para a conservação de carnes. Devido à sua escassez e importância, o sal chegou a ter o valor equivalente ao ouro, e foi o pivô de guerras e disputas; só para se ter uma ideia, as primeiras estradas construídas tinham como objetivo transportar o sal. Hoje, devido ao avanço da tecnologia e à produção em larga escala, o sal está ao alcance de todos.

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), sal para consumo humano refere-se ao “cloreto de sódio cristalizado extraído de fontes naturais, adicionado obrigatoriamente de iodo”. O sal pode ser classificado de acordo com a sua composição e processamento (comum, refinado e marinho) e características dos grãos (grosso, peneirado, triturado e moído), cada qual com suas especificações definidas pela legislação.

Na Bíblia o sal é mencionado como tempero (Jó 6:6; Mc.9:50), remédio e conservante (Ez.16:4). Também é usado em simbolismo, onde os cristãos são chamados de “sal da terra”. Essa descrição faz alusão ao tempero; assim, quem é sal da terra é alguém que tempera o ambiente; essa pessoa, por meio de sua crença e fé inspira e gera um gosto especial no meio em que se encontra.

2. A importância do sal

A importância do sal é sobremaneira destacável em todos os ambientes, largamente utilizado em todos os estratos sociais nos tempos antigos (cf. Ed.7:21,22; Mc.9:50; Cl.4:6). Dentre muitos efeitos, destacamos alguns:

a) A sua função monetária. Nos tempos antigos, entre outras formas de uso, destacava-se a sua função monetária nas transações comerciais. É tanto que o termo salário deriva do latim salarium, que significa “dinheiro de sal”, como parte do pagamento aos soldados romanos.

b) O valor médico do sal. Para além do valor nutritivo do sal, principalmente quanto ao sabor dos alimentos (cf. Jó 6:6), há que se considerar, também, o seu elevado valor medicinal. Enquanto o consumo excessivo traz prejuízos ao organismo, a abstenção absoluta e continuada provoca danos à saúde; daí porque o crente não só tem que tornar suas ações espiritualmente palatáveis, no ambiente em que está, como também precisa exercer papel restaurador entre os doentes (cf. Is.61:1; Lm.1:16).

c) O poder de preservação do sal. Nos tempos antigos, e até mais recentes, este era o recurso para evitar a deterioração dos alimentos perecíveis, de modo que podiam ser ingeridos a qualquer tempo, sem a perda de seus valores nutricionais. O que mais se destaca no sal, quanto à relevância do crente no mundo, é o seu poder de preservação. Ora, o mundo não está pior porque as ações do crente submisso ao Espírito Santo contribuem para evitar a sua deterioração (cf. 2Ts.2:1-8).

3. O cristão como sal

No Sermão do Monte, Jesus tratou da relevância cristã, aludindo inicialmente ao sal. Ele disse, referindo aos discípulos, e estendendo a todos os crentes: “Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens” (Mt.5:13). Jesus não disse que somos o mel do mundo, mas o sal da terra; também não disse que somos sal no saleiro, mas sal da terra. O sal precisa entrar em contato com aquilo que deve ser salgado para exercer o seu papel. O sal precisa ser esfregado na carne e, quando isso acontece, ele arde, mas seu resultado é preservador. Note que a Igreja não influencia o mundo isolando-se dele, mas entrando em contato com ele, sendo diferente dele, penetrando nele com sua saneadora influência. Muitas pessoas, ao se tornarem crentes, isolam-se das outras pessoas, trancam-se numa estufa, escondem-se numa redoma de vidro, numa bolha espiritual, e se tornam sal no saleiro, e depois sal insípido. Elas não se apresentam, não se inserem, não influenciam, não salgam; tornam-se antissociais e antiespirituais. John Stott é muito oportuno ao escrever:

  “O sal cristão não tem nada de ficar aconchegado em elegantes e pequenas despensas eclesiásticas; nosso papel é o de sermos “esfregados” na comunidade secular, como sal é esfregado na carne, para impedir que apodreça. E, quando a sociedade apodrece, nós, os cristãos, temos a tendência de levantar as mãos para o Céu, piedosamente horrorizados, reprovando o mundo não cristão; mas não deveríamos, antes, reprovar-nos a nós mesmos? Ninguém pode acusar a carne fresca de deteriorar-se. Ela não pode fazer nada. O ponto importante é: onde está o sal?”.

É importante registrar que a eficácia do sal é condicional; ele precisa conservar sua salinidade (Mt.5:13). Johan Stott afirma corretamente que o cloreto de sódio é um produto químico muito estável, resistente a quase todos os ataques. Não obstante, pode ser contaminado por impurezas, tornando-se, então, inútil e até mesmo perigoso. O que perdeu a sua propriedade de salgar não serve nem mesmo para adubo. É óbvio que a salinidade do cristão é o seu caráter transformado pela graça de Jesus, conforme descrito nas bem-aventuranças. Segue-se que, se os cristãos forem assimilados pelo mundo em vez de influenciarem o mundo, perderão completamente sua utilidade. Concordo plenamente com Stott quando ele descreve: “a influência dos cristãos na sociedade e sobre a sociedade depende da sua diferença, e não da sua identidade”. Nessa mesma linha de pensamento, Martyn Lloyd-Jones diz que “a glória do evangelho é que, quando a Igreja é absolutamente diferente do mundo, ela invariavelmente o atrai. É então que o mundo se sente inclinado a ouvir a sua mensagem”.


II. A LUZ ILUMINA LUGARES EM TREVAS

1. Conceito físico e metafórico da Luz

Outro símbolo de forte impacto empregado por Jesus no Sermão do Monte foi a luz. Mas, o que é a luz? Segundo os físicos, é uma forma de radiação eletromagnética cuja frequência é visível ao olho humano. A luz pode propagar-se no vácuo com velocidade de aproximadamente 300 mil km/s. Do latim lux, a luz é o agente físico que permite que os objetos sejam visíveis. O termo também é usado para fazer alusão à claridade irradiada pelos corpos, à corrente elétrica (eletricidade) e ao utensílio que serve para iluminar (as lâmpadas, os candeeiros, as velas, etc.).

Uma característica importante da luz é que ela ilumina tudo; não deixa lugar para trevas. A escuridão não consegue jamais prevalecer ante a luz. Quando esta chega, as trevas desaparecem. Por outro lado, a ausência absoluta de luz permite que a escuridão prevaleça em termos absolutos de modo que nada fica visível aos olhos humanos. Por isso, a afirmação metafórica de Jesus: “Vós sois a luz do mundo” (Mt.5:14). Ou seja, o meio de os homens conhecerem na prática a verdade divina é através do testemunho de cada crente.

Pela sua própria natureza a luz tem visibilidade, haja vista os faróis marítimos construídos junto à costa para orientar os navios. Estes, ao contemplá-los, são capazes, mesmo à distância, de ajustar o seu posicionamento na região costeira. Ora, Jesus afirmou que não se põe a candeia debaixo do alqueire (Mt.5:15); isto posto, onde o crente estiver a visibilidade positiva de sua fé tem o efeito de atrair outros a Cristo.

O fato de estarmos acostumados à luz, por outro lado, leva-nos muitas vezes a não compreendê-la como algo essencial à vida. Só quando desaparece damos conta da sua real importância. As plantas, por exemplo, sobrevivem porque metabolizam substâncias orgânicas através da energia oriunda da luz do sol. Na verdade, a Terra depende da energia solar para a sua sobrevivência. Aplicando à vida espiritual, isto significa que só a presença de Cristo - o Sol da justiça - é capaz de pôr ordem no mundo e permitir que os crentes reflitam o brilho dessa luz para trazer vida aos que os cercam (cf. João 8:12).

2. O cristão como luz

“Vós sois a luz do mundo” (Mt.5:14). Em que sentido podemos ser a luz do mundo, quando o próprio Cristo o é (João 8:12), e o maior dos profetas testificou que ele mesmo não era? (João 1:6-8). A resposta é que brilhamos como luz refletida. Cristo é como o sol que brilha com a sua própria luz. Nós somos como a lua que brilha com a luz espelhada do sol. Cristo não disse no Sermão do Monte: “Brilhai diante dos homens”, mas disse: “Brilhe a vossa luz...” (Mt.5:16). Como testemunhas do Senhor Jesus, passamos a ser luz do mundo e podemos ser chamados de “cristãos”, ou seja, “parecidos com Cristo”, “semelhantes a Cristo”. O apostolo Paulo diz que devemos resplandecer como luzeiros no mundo (Fp.2:15). Essa luz inclui o que o cristão diz e faz, ou seja, o seu testemunho verbal e as suas boas obras. Concordo com John Stott quando diz que essas obras são obras da fé e do amor; expressam não apenas a lealdade a Deus, mas também nosso interesse por nossos semelhantes. Sem essas obras, o nosso evangelho perderia sua credibilidade; e Deus, a sua honra.

3. A luz em lugares de trevas

O fato de a Igreja ser luz do mundo implica que o mundo está em trevas. O diabo cegou o entendimento dos incrédulos (2Co.4:4). O reino do diabo é o reino das trevas (Cl.1:13); ele é o príncipe das trevas. As pessoas andam em trevas; suas obras são conhecidas como obras das trevas. Os pecadores não sabem de onde vieram nem para onde vão; eles nem sabem em que tropeçam; não apenas vivem nas trevas, mas aborrecem a luz (João 3:20,21). O papel da Igreja como luz do mundo, portanto, é vital.


III. DISCIPULOS QUE INFLUENCIAM

1. Sendo “sal”

O discípulo tem uma função importante: ser sal da terra, isto é, viver os termos do discipulado descrito nas bem-aventuranças e no decorrer do Sermão do Monte. Se ele falhar em exibir essa realidade espiritual, seu testemunho será pisado pelos homens (Mt.5:13). O mundo se deleita quando um crente não é fiel. Jesus disse aos seus discípulos que se quisessem fazer a diferença no mundo, também teriam que ser diferentes do mundo. Devemos ser diferentes se quisermos fazer a diferença. Assim como o sal conserva e realça o melhor sabor dos alimentos, os crentes devem ser o “sal da terra” e influenciar as pessoas positivamente.

2. Sendo “luz”

Jesus também chamou os discípulos de “luz do mundo”. Também falou de si mesmo como “a luz do mundo” (João 8:12; 12:35,36,46). A relação entre essas duas afirmações é que Jesus é a fonte da luz; os discípulos são o seu reflexo. Sua função é brilhar por Ele da mesma forma como a lua reflete a glória do sol. Somos a luz do mundo, e a nossa luz deve refletir Cristo. A luz aponta para algo ou alguém, e não para si mesma. Como luz, devemos “brilhar” na família, na escola, na universidade, no trabalho e em todos os extratos da sociedade, refletindo a luz de Cristo. Na medida em que espargimos no mundo a luz de Cristo, por meio das boas obras, o Pai é glorificado no Céu e os homens são servidos na terra (Mt.5:16).


3. A influência cristã

Disse Jesus: “...não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte” (Mt.5:14). Da mesma forma que o sal para ser útil precisa conservar sua salinidade, a luz para ser útil não pode ser escondida. A Igreja precisa ser como uma cidade edificada sobre um monte ou como uma luz no velador. A verdade não pode ser escondida, mas proclamada. A Igreja não pode se esconder, mas deve resplandecer. Portanto, não é a intenção de Jesus que estoquemos a luz dos seus ensinamentos para nós mesmos, mas que compartilhemos com outros.

Devemos deixar que nossa luz brilhe de tal modo que as pessoas vejam nossas boas obras e glorifiquem a Deus. A ênfase está no ministério do caráter cristão. William Macdonald afirmou que o atrativo de uma vida por meio da qual Cristo é visto fala mais alto que a persuasão de palavras. Pr. Hernandes Dias Lopes argumenta que para influenciar o mundo, a Igreja precisa ser, antes de fazer; pregar aos olhos, antes de pregar aos ouvidos; ter a vida certa, e não apenas a doutrina certa. Há muitas pessoas que são ortodoxas de cabeça e hereges de conduta; são ortodoxas na teoria e liberais na prática; defendem doutrinas certas e vivem uma vida errada; são zelosas das tradições da Igreja, mas vivem na prática do pecado; pregam o que não vivem; exigem dos outros o que não praticam; coam um mosquito e engolem um camelo. Isso não é ser luz do mundo. Ser “luz do mundo” é iluminar o mundo, e isto significa fazer resplandecer a luz do Evangelho de Cristo (2Co.4:4), o que somente se faz quando praticamos a verdade, quando temos um comportamento de total submissão às Escrituras (2Co.4:2). Quando vivemos conforme a Palavra de Deus, os homens veem que estamos na luz e identificam que somos filhos de Deus e, por isso, glorificam ao nosso Pai que está nos céus, pois sabem que nossas obras são boas (Mt.5:16).


CONCLUSÃO

O sal e a luz são relevantes pelo efeito que exercem; sem eles não haveria qualidade de vida. Portanto, cada cristão deve ser relevante, isto é, brilhar o máximo por Jesus, primar pela excelência espiritual, realçar a distinção entre o crente e o mundo. Com isto todos perceberão que ser crente é muito mais do que frequentar o templo, é demonstrar amor ao próximo na mesma medida de Cristo (João 13:34). Portanto, a relevância dos crentes, como sal da terra e luz do mundo, tem como propósito maior glorificar a Deus (Mt.5:16). Quando o perdido se converte mediante o labor da Igreja, Deus é exaltado em sua glória, pois trata-se do resgate de sua imagem em vidas antes corrompidas pelo pecado.

O SERMÃO DO MONTE: O CARÁTER DO REINO DE DEUS

 


Texto Base: Mateus 5:1-12


“Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa” (Mt.5:11).

Mateus 5:

1.Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos;

2.e, abrindo a boca, os ensinava, dizendo:

3.Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus;

4.bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;

5.bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;

6.bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;

7.bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;

8.bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;

9.bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;

10.bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus;

11.bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa.

INTRODUÇÃO

Neste 2º trimestre de 2022 vamos estudar um dos textos mais belos e conhecidos da Bíblia Sagrada: o Sermão do Monte. Inicialmente, nesta primeira Aula, trataremos do tema: “O Sermão do Monte: o caráter do Reino de Deus”. John Stott afirma que o Sermão do Monte é o mais lido, o menos compreendido e o menos praticado de todos os ensinos de Jesus. Ao estudá-lo, precisamos aceitar os seus ensinamentos com o máximo de seriedade, pois ele contém os mais altos padrões, os maiores valores, as prioridades do cristianismo. Encontramos nele tudo aquilo que devemos ser e fazer.

O evangelista Mateus introduz o Sermão de uma forma singela: “Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos; e, abrindo a boca, os ensinava...” (Mateus 5:1,2). Muitas vezes, Jesus apresentava seus ensinos sobre um monte. Seus discípulos vinham até Jesus e Ele se sentava para ensinar. A multidão de pessoas se reunia e se sentava nas encostas abaixo dele. Provavelmente, Jesus dirigia esses ensinos principalmente aos doze discípulos, mas as multidões estavam presentes e ouviram suas palavras. Este Sermão desafiava os ensinos dos orgulhosos e legalistas líderes religiosos daquela época. Ele conclamava o povo para ouvir as mensagens dos profetas do Antigo Testamento que, como Jesus, haviam ensinado que Deus quer obediência sincera, e não mera e legalista obediência às leis, tradições e rituais.

Ao estudarmos o Sermão do Monte, devemos ir além do seu ensino moral, ético e espiritual; precisamos ultrapassar a beleza das suas expressões e ilustrações, o perfeito equilíbrio da sua estrutura, a harmonia dos seus ensinamentos, para chegarmos à pessoa do seu Pregador: Jesus, o Mestre por excelência. O valor e a autoridade desse sermão estão no próprio Jesus - Ele é mais importante que Seu sermão. Quando tomamos consciência de que o Mestre era o próprio Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, nosso Salvador, não temos outra coisa a fazer a não ser aceitar e praticar os Seus ensinos.

I. A ESTRUTURA DO SERMÃO DO MONTE

1. Por que Sermão do Monte?

Porque foi proferido sobre um monte, nas proximidades de Cafarnaum, no início do Seu ministério público, após o Seu batismo e tentação. Depois de uma das suas pregações do novo reino (Mt.4:23-25), chamou os doze discípulos sobre um monte, e depois que os discípulos se acomodaram, Jesus proclamou o mais conciso e ordenado código de ética e padrão de conduta, que abrangeu todos os seus ensinamentos, e que os apóstolos deveriam saber de cor, e deviam observá-lo como regra principal para permanência no Reino de Deus.

O Sermão do Monte é um dos mais famosos ensinos de Jesus; no entanto, nem sempre é fácil de interpretar, sendo frequentemente mal-entendido. É radical, revolucionário, provocativo e simples; não obstante, profundo. Talvez não seja acidental que Jesus comece seu ensino sobre a ética do novo Reino numa montanha, da mesma maneira que Moisés deu a Lei no Monte Sinai. Ademais, Jesus cita a antiga Lei neste Sermão, prossegue falando com autoridade sobre ela e a amplia como se Ele estivesse maior autoridade que Moisés (cf.Mt.5:17,18). Para ensinar, Jesus se senta, e os discípulos e a multidão sentam-se à sua volta – habitual postura pedagógica dos rabinos naquela época.

Nesse Sermão, Jesus faz uma síntese das leis morais que regem a humanidade. É considerado a constituição do Reino de Deus, sendo todos os seus dispositivos - capítulos e versículos – pétreos, ou seja, imutáveis e perpétuos. Não é por acaso que esse Sermão está situado no início do Novo Testamento; essa posição indica sua elevada importância. Nesse Sermão, o Rei resume o caráter e a conduta esperados dos seus súditos.

Antes do sermão começar, vemos no capítulo 4 o início do ministério de Jesus, quando anuncia a vinda do Reino de Deus (Mateus 4:17,23). Para consolidar as leis desse Reino, Jesus transmite este sermão com o objetivo de tornar claro a conduta esperada dos seus súditos (seus seguidores, os cristãos de todo o período da graça). Ali se achava tudo o que a alma necessitava saber a respeito de Deus, da criação e da vida quotidiana, tanto naquela época como nas vindouras. Além dos discípulos, uma numerosa multidão o aguardava para ouvir o seu verbo redentor. Foi ali que, introdutoriamente, comunicou à humanidade inteira as oito regras básicas para todo o comportamento dos seus súditos – as Beatitudes (Mt.5:3-12):

3.Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus;

4.bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;

5.bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;

6.bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;

7.bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;

8.bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;

9.bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;

10.bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus;

11.bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa.

12.Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.

2. A Estrutura do Sermão do Monte

O Sermão do Monte está estruturado em cinco grandes discursos proferidos por Jesus Cristo e tem como público-alvo todos aqueles que nasceram de novo em Cristo Jesus. É um discurso que pode ser lido no Evangelho de Mateus (Caps. 5-7) e no Evangelho de Lucas (fragmentado ao longo do livro). Nesses discursos, Jesus Cristo profere lições de conduta e moral, ditando os princípios que normatizam e orientam a vida cristã. Os cinco sermões de Jesus: (a) As Bem-aventuranças (Mt.5:3-12); (b) Sal e Luz (Mt.5:13-16); (c) Jesus é o cumprimento da Lei (Mt.5:17-48); (d) Os atos de justiça (Mt.6:1-18); (e) Declarações de sabedoria (Mt.6:19-7:27). Pormenorizando melhor, podemos destacar a estrutura do Sermão do Monte da seguinte maneira:

2.1. Introdução

a) As Bem-Aventuranças (Mt.5:3-12). Bem-aventurado significa "é feliz aquele". Essa é uma estrutura comum na poesia e sabedoria hebraica para indicar onde está a felicidade ou quem é feliz e por quê. Jesus surpreende seus ouvintes no seu ensino sobre a felicidade, porque todos os que são bem-aventurados são pessoas que estão sofrendo de alguma forma.

b) O sal da terra e a luz do mundo (Mt.5:13-16). A missão básica dos seguidores de Jesus no mundo: conservar e guiar.

Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte (Mt.5:13,14).

c) Jesus cumpre a Lei (Mt.5:17-20). Jesus explica sua própria missão, que não é de revogar ou negar a Lei de Moisés, mas de colocá-la em prática.

Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir (Mt.5:17).

2.2. O que não deve fazer

a) Homicídio (Mt.5:21-26). Jesus amplia o nível da Lei de Moisés. Antes, o homicídio era o assassinato na prática; agora, só o ódio já é considerado um homicídio, e quem ofende o próximo está correndo risco de ser incriminado.

Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo (Mt.5:21,22).

b) Adultério (Mt.5:27-30). No Sermão do Monte, Jesus dá um tom mais forte a este pecado. Antes, apenas o adultério na prática era pecado; agora, só de pensar em possuir outra pessoa já é adultério.

Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela (Mt.5:28).

c) Divórcio (Mt.5:31-32). A vontade de Deus nunca foi que maridos e mulheres se separassem, mas abriu uma única exceção: o adultério. Todo divórcio que não se deu por esse motivo, é como se não existisse aos olhos de Deus, e o casal continuasse casado.

d) Juramentos (Mt.5:33-37). Jesus se opõe a má prática de juramento, que estava sendo abusada pelos judeus. Ao invés de jurarem, Jesus instrui que ninguém jure como forma de validar suas palavras, mas que cada um sempre cumpra o que disse.

e) Vingança (Mt.5:38-42). Jesus ensina que vingança não é sinônimo de justiça, e que na lógica do Reino de Deus devemos retribuir positivamente aquilo que recebemos negativamente.

Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra (Mt.5:39).

f) Odiar os inimigos (Mt.5:43-48). Subvertendo a ordem de que as pessoas deveriam odiar os seus inimigos, Jesus instrui que amá-los é o jeito certo de tratar os inimigos. Ele diz, inclusive, para que as pessoas orem a Deus em favor daqueles que os perseguem – “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt.5:44). E mais, ele disse que para sermos filhos de Deus temos que cumprir este duro mandamento – “para que vos torneis filhos do vosso Pai Celeste....” (Mt.5:45).

2.3. O que deve fazer

a) Ajudar os necessitados (Mt.6:1-4). A prática de ajuda ou auxílio àqueles que mais precisam é uma ordem clara de Cristo. Ele adverte, ainda, para que ninguém anuncie isso esperando aprovação das outras pessoas.

Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai Celeste (Mt.6:1).

b) Oração (Mt.6:5-15). A oração é a ação mais básica esperada de um cristão, e Jesus ensina seus discípulos a orarem com a conhecida Oração do Pai Nosso. Sua advertência anterior também está presente: não anuncie que está orando, mas faça isso em secreto, porque o Pai que vê em secreto assim recompensará.

c) Jejum (Mt.6:16-18). A terceira prática esperada dos cristãos é o jejum, e a sua advertência continua presente: não mostrar aos outros que está jejuando.

2.4. Cuidados gerais

a) Os tesouros no Céu (Mt.6:19-24). Quem se preocupa demais com os bens materiais, se preocupa com aquilo que irá naturalmente se degradar ou se perder. Quem se preocupa com as coisas do céu, se preocupa com o que é eterno. Jesus ensina que ao invés de nos preocuparmos em acumular tesouros nessa vida, devemos nos empenhar em acumular tesouros na vida eterna.

b) As preocupações da vida (Mt.6:25-34). Jesus instrui que as pessoas devem se preocupar com as coisas eternas, em vez de coisas passageiras. O Reino de Deus e a sua justiça deve ser a maior preocupação do cristão, não bens materiais, que são efêmeros.

buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Mt.6:33).

c) Julgamento ao próximo (Mt.7:1-6). Esse é um trecho muito mal interpretado, pois aqui Jesus não está proibindo as pessoas de julgarem, mas as instrui para julgarem de maneira correta. Antes de dizer que alguém está errado ou fazendo algo errado, deve-se investigar a si mesmo para ver se não está tropeçando na mesma coisa, pois seria hipocrisia.

Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão (Mt.7:5).

d) Persistência na oração (Mt.7:7-12). Nesse trecho Jesus ressalta a confiança que as pessoas devem ter em Deus, e que Ele suprirá nossas necessidades. Por isso, devemos continuar orando e pedindo a Deus.

2.5. A Prática da verdade

a) Porta estreita e porta larga (Mt.7:13-14). Este é um dos discursos mais duros que Jesus já proferiu. Aqui ele explica que entrar no Reino dos Céus não é algo fácil, e a vida de quem segue a Deus também não será, mas envolverá perdas e restrições. Por outro lado, o caminho do mundo e da libertinagem é muito mais fácil, mas certamente não levará ninguém a Deus.

Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela) (Mt.7:13).

b) A Árvore e seu Fruto (Mt.7:15-23). Esse trecho serve para saber quem é de Deus e quem não é de Deus. Pelos frutos se conhece a árvore. Quem possui bons frutos, deve ser uma pessoa boa; mas quem tem maus frutos, deve ser uma pessoa má. Ainda assim, deve-se ter em vista que Jesus está se referindo, em especial, aos falsos mestres (Mt.7:15), ou seja, sua maior preocupação é com a qualidade do ensino que as pessoas estão apreendendo.

c) O Prudente e o Insensato (Mt.7:24-27). Nesse trecho Jesus mostra a importância do seu ensino. Quem o ouve e pratica os seus ensinamentos é sábio e salva sua vida. Quem o ouve, mas não pratica os seus ensinamentos, é tolo e encontrará somente perdição.

Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína.

3. A quem se destina o Sermão do Monte

O Sermão do Monte foi dirigido, incialmente, aos seus discípulos (Mt.5:1,2), e a intenção é ser a constituição, ou o sistema de leis e princípios que governam os súditos do Rei no seu reinado. Portanto, não é uma apresentação do plano de salvação, nem seus ensinamentos têm como alvo os descrentes. O Sermão do Monte tem um valor distintamente judaico, como visto nas alusões ao Sinédrio (Mt.5:22), ao altar (Mt.5:23,24) e a Jerusalém (Mt.5:35); mesmo assim, seria errado dizer que os ensinamentos são exclusivamente para os crentes israelitas no passado ou futuro; são para todos os que, em qualquer época, reconhecem Jesus Cristo como Rei. Quando Cristo estava na terra, a aplicação direta do Sermão do Monte era aos Seus discípulos; agora, que nosso Senhor reina dos céus, aplica-se a todos os que o coroam como Rei no coração. Enfim, será o código de comportamento dos seguidores de Cristo durante o período da graça e durante Seu futuro reinado na Terra.

II. AS BEM-AVENTURANÇAS E O CARÁTER DOS FILHOS DE DEUS

1. O que são as Bem-aventuranças?

Há pelo menos quatro considerações sobre as bem-aventuranças: (a) São um código de ética para os discípulos e um padrão de conduta para todos os cristãos; (b) contrastam os valores do Reino, que é eterno, com os terrenos, que são temporários; (c) contrastam a fé superficial dos fariseus com a fé real que Cristo exige; (d) demonstram que as expectativas do Antigo Testamento cumprir-se-ão no Reino de Cristo.

Cada bem-aventurança diz respeito a uma bênção de Deus, e abrange três seções: o estado (isto é, “bem-aventurado”), a condição e a recompensa. Elas não prometem riso, prazer ou prosperidade terrena. Para Deus, bem-aventurado é aquele que tem uma experiência de esperança e alegria, independentemente das circunstâncias exteriores. Para encontrar essa forma mais profunda de felicidade, a pessoa precisa seguir a Jesus a despeito do preço a pagar. Jesus, nas bem-aventuranças, nos dá a receita da verdadeira felicidade. Ele põe diante de nós o mapa que nos leva a esse paraíso cobiçado. Os tesouros riquíssimos da verdadeira felicidade estão ao nosso alcance, A felicidade não é uma utopia, mas algo factível, concreto, tangível, ao nosso alcance. A boa notícia é que a felicidade não é algo que compramos com dinheiro ou conquistamos com status, mas um presente que recebemos de Deus.

O mundo tem o seu próprio conceito de bem-aventurança, onde feliz é o homem forte, rico, popular e satisfeito consigo mesmo. Mas, segundo afirma Hernandes Dias Lopes, a felicidade não está nas coisas que vemos; é uma atitude do coração. Não é um pagamento de nossas virtudes, mas um presente da graça de Deus. Não é algo que conquistamos pelo nosso esforço, mas um dom que recebemos pela fé. O que o mundo promete e não consegue dar, Jesus oferece gratuitamente. É importante afirmar que esse roteiro está na contramão de todas as orientações dadas pelo mundo. Não é algo que o homem faz para agradar a Deus, mas o que Deus faz para o homem. A verdadeira felicidade não é prêmio, é presente; não é merecimento, é graça.

2. O Reino de Deus e seu caráter

O Reino de Deus é onde Jesus é rei. Na Bíblia, o Reino de Deus é um reino espiritual que um dia dominará tudo. Esse reino começou agora, dentro do coração de cada pessoa que aceitou Jesus como seu Senhor e Salvador. Deus reina sobre tudo, nada acontece sem sua permissão. O mundo todo pertence a Deus, porque Ele o criou. Mas quando o pecado entrou no mundo, o ser humano se rebelou contra a soberania de Deus. Deus continua sendo o rei sobre tudo e sobre todos, mas enquanto o ser humano estiver sob o poder do pecado ele rejeitará a autoridade de Deus sobre ele; torna-se escravo do diabo. Por isso, Deus enviou Jesus para restabelecer o Reino, através de Sua morte e ressurreição. Quem aceita Jesus como seu salvador deixa de pertencer ao reino das trevas e se torna cidadão do Reino de Deus (Cl.1:13,14).

O Reino de Deus ainda não foi completamente estabelecido, mas já começou. Jesus explicou isso na parábola do grão de mostarda - a semente do Reino foi lançada e continua crescendo (Lc.13:18-19). Cada pessoa que aceita Jesus faz crescer o Reino. Um dia o Reino encherá toda a terra, mas até lá ele cresce dentro de nossos corações. No fim dos tempos, quando Jesus voltar, o Reino de Deus será restabelecido para sempre. Será o tempo no qual cumprir-se-á a profecia de Daniel em que os reinos deste mundo serão destruídos, o mal aniquilado, restabelecer-se-á a comunhão perfeita com Deus e o Senhor reinará com justiça para sempre. Não será o resultado da utopia socialista, do avanço dos conhecimentos científicos, da unificação dos credos em uma só religião mundial, nem de qualquer desenvolvimento moral da sociedade, mas do propósito original para a criação.

Na presente manifestação do Reino de Deus, ser salvo implica a libertação do poder e dos valores do mundo, em Deus deter o poder de Satanás e dos demônios, mas em sua dimensão escatológica traduz a ideia da redenção do corpo – “o livramento da mortalidade” – em que o crente redimido assemelhar-se-á ao próprio Senhor em sua imortalidade. Nessa bendita Era, o inimigo e os seus agentes já terão sido banidos para o lago de fogo, o inferno. Com a plena ausência do mal e o pleno triunfo do bem, será também a época em que a comunhão restaurada em sua plenitude terá como símbolo maior o banquete entre Cristo e a Igreja. Não haverá mais tristeza nem sofrimento, e a justiça e a paz reinarão (Rm.14:17). Quem aceitar Jesus como seu salvador e não desistir herdará a vida eterna no Reino de Deus.

3. Os súditos do Reino de Deus

Os súditos do reino de Deus são os justos, os redimidos, aqueles que obedecem e praticam o código de ética e padrão de conduta estabelecido por Jesus. Jesus disse que se a justiça dos discípulos não excedesse em muito a dos escribas e fariseus, jamais eles entrariam no Reino de Deus, ou seja, não seriam súditos do Reino (Mt.5:20). Jesus deixa claro que os escribas e fariseus, que torciam a lei e oprimiam o povo com um discurso legalista, ostentando uma santidade aparente e uma justiça apenas exterior, estavam foram do reino de Deus. Para entrar no Reino de Deus é necessário não ostentar, mas ser humilde de espírito. É necessário não se gabar de sua justiça, mas chorar pelos seus pecados. É necessário não defender seus direitos, mas ser manso. É necessário ter fome não de prestígio, mas de justiça. É necessário não oprimir os necessitados e indefesos, mas ser misericordioso. É necessário não agasalhar hipocritamente toda sorte de imundícia no coração, mas ser limpo de coração. É necessário não criar contendas e odiar as pessoas em nome de Deus, mas se dispor a sofrer por causa da justiça. Essa é a justiça que excede em muito a justiça dos escribas e fariseus.

III. SOMOS BEM-AVENTURADOS

1. A beatitude na vida dos salvos

Beatitude significa Bem-aventurança; estado de plenitude, de felicidade profunda, experienciada pela presença de Deus na vida. As Beatitudes descrevem como os seguidores de Cristo devem viver. O salvo em Cristo vive as beatitudes do Sermão do Monte de maneira sincera e obediente. Cada uma das Beatitudes mostra como o crente pode ser bem-aventurado. Ser bem-aventurado significa ter mais do que felicidade; significa receber o favor e a aprovação de Deus. De acordo com os padrões mundanos, os tipos de pessoas descritos por Jesus não parecem ser particularmente abençoados por Deus. Mas a forma de vida que agrada a Deus geralmente contradiz a forma de vida do mundo. Os súditos do Rei certamente receberão a recompensa pelo modo de viver explicitado no Sermão do Monte. A consumação final de todas as recompensas se encontra no futuro, na plenitude do Reino de Deus. Entretanto, os crentes já podem compartilhar o Reino (que já foi revelado), vivendo de acordo com as palavras de Jesus.

2. A prova de que o cristão é bem-aventurado

A prova que o cristão é bem-aventurado pode ser inferida quando o seu caráter cristão é aprovado por Deus. John Stott afirma que as bem-aventuranças enfatizam oito sinais principais da conduta e do caráter cristãos, especialmente em relação a Deus e aos homens. Assim como o fruto do Espírito (Gl.5:22) expressa o caráter do cristão, e não as diversas facetas dele, de igual forma as bem-aventuranças são oito atributos do mesmo grupo de pessoas. Um cristão maduro tem todas essas oito qualidades, e não apenas algumas delas. As oito qualidades (fruto do Espírito) juntas constituem as responsabilidades; e as oito bençãos (as bem-aventuranças), os privilégios, a condição de cidadãos do Reino de Deus. Portanto, um cristão bem-aventurado é resultado de um estreito relacionamento com Deus, consigo mesmo e com o próximo. As oito bem-aventuranças apontam para esse quádruplo relacionamento: atitude em relação a si mesmo (Mt.5:3,4); em relação ao pecado (Mt.5:5,6); em relação a Deus (Mt.5:7-9); em relação ao mundo (Mt.5:10-12). Contudo, é bom enfatizar que as bem-aventuranças não são qualidades inatas ou adquiridas pelo esforço humano. Nenhuma pessoa poderia possuir essas bem-aventuranças à parte da graça de Deus.

CONCLUSÃO

“O Sermão do Monte é a base ética do Reino de Deus. Nele, constatamos o lado divino de uma atitude amorosa do cristão para com Deus, bem como para com o próximo. Se cada crente fizesse do Sermão do Monte o seu norte ético de vida, as polêmicas não teriam lugar entre nós, não haveria espaço para meras opiniões intelectuais, visto que o propósito desse Sermão é que cada crente seja como Deus quer que ele seja” (Pr. Osiel Gomes).